CAPÍTULO VII
A lenda da mãe-d'água. O cafuné. A educação das crianças. Origem divina da escravatura.
É curioso encontrarem-se no fundo das matas virgens da América as superstições da Grécia pagã e as dos gauleses, nossos antepassados.
Gênios das águas e dos bosques, os Janchons dos botocudos e os Ouiaoupias dos tupinambás — essas duas grandes nações que personificavam as raças tupi e tamoio, que abrangiam antigamente toda a América do Sul — não representarão os seus homens os deuses inferiores que presidiam os rios e as brenhas: faunos, sátiros, náiades e hamadríades da mitologia? Geropari não será o arremedo do deus Pan? Não se cuidará talvez da sereia de Ulisses, que tivesse atravessado o oceano para ir habitar um lago do Brasil, a Lagoa, o lago sagrado dos botocudos, tanto quanto para os druidas era sagrado o lago de Toulouse, e o que Strabon chama o lago dos Dois Corvos?
Quando, depois de se ter subido o rio Patipe, se pode contemplar o magnífico espetáculo que oferecem as proximidades da Lagoa, compreende-se o entusiasmo dos botocudos por esse recanto de delícias.