Quando “À Margem da História do Brasil” foi publicado em 1933, Vicente Licínio Cardoso já estava morto há dois anos. Organizado por amigos, este livro póstumo foi constituído por uma série de artigos e conferências, seguindo o estilo das outras publicações do autor lançadas entre os anos de 1924 e 1928. Vicente Licínio foi um ensaísta que optou por escrever breves estudos e artigos de opinião em detrimento de longos textos.
O livro se divide em seis grandes ensaios, intitulados, pela ordem: “Rio São Francisco Rio sem História”, “O Rio São Francisco Base Física da Unidade do Império”, “À Margem do Domínio Espanhol do Brasil”, “Diogo Antônio Feijó, Um Fantasma do Segundo Império”, “À Margem do Segundo Reinado” e “Euclides da Cunha”, este último dividido em três seções. Os textos foram produzidos em 1925, com exceção do primeiro, de 1923, e do quarto, escrito em 1926. Boa parte da produção literária e ensaística do autor foi feita nesse período, e em apenas dois anos (1924 e 1925) foram editados quatro livros de Vicente Licínio Cardoso!
Rio São Francisco, Segundo Reinado, Feijó, União Ibérica e Euclides. O que se pode depreender dessa diversidade temática? Não se trata de algo singular no pensamento brasileiro, pois outros intelectuais também se dedicavam tanto a temas históricos gerais, como a perfis de grandes vultos brasileiros. Note-se, aliás, a presença de objetos já clássicos na imaginação ilustrada do país, como o rio São Francisco, tema consagrado em análises anteriores de Capistrano de Abreu e João Ribeiro. Essa inscrição no coração da tradição intelectual nacional também se verifica no uso da expressão “à margem de” para introduzir um conjunto de comentários gerais sobre a marcha histórica da civilização brasileira em determinado contexto histórico. Como se sabe, Euclides da Cunha – não por acaso, ele próprio objeto do livro – consagrou a expressão no seu texto “À Margem da História” (Cunha, 1909), parafraseado na coletânea organizada por Vicente Licínio em 1924, “À Margem da História da República” (Cardoso, 1924).
Mas o que pode significar estar à margem? Em primeiro lugar, a expressão indica a posição do intérprete como um comentador que se vale de sua inscrição temporal para refletir sobre eventos passados. Assim como anotamos nas margens de textos, esses intelectuais se voltavam para o passado e produziam seus comentários e suas reflexões sobre o sentido da trajetória brasileira. Além disso, expressavam suas próprias biografias como intelectuais numa sociedade periférica e desigual, na qual se situavam de forma desconfortável.
À margem sentia-se Vicente Licínio, a despeito de seu engajamento na causa educacional na década de 1920 e do papel de destaque na organização da vida intelectual do período. Formado na Escola Politécnica e convicto de sua herança positivista, via-se como um intelectual missionário, em conflito com as circunstâncias políticas de seu tempo e com os rumos do país. Nesse sentido, não diferia muito do modelo clássico do engenheiro-pensador, personificado por Euclides da Cunha. Esse tipo intelectual combinava um forte senso de moralidade pública a uma personalidade baseada na contenção emocional e na projeção de uma identidade ética. À margem, portanto, de um mundo social que parecia aberto apenas aos oportunistas. O trabalho clássico de Nicolau Sevcenko (Sevcenko, 2003) desvendou com maestria essa sensibilidade, tão típica da intelligentsia da Primeira República. Dotados de forte sentido ético-moral, a ação desses intelectuais partiria da percepção de que a emergente ordem republicana permitia a disseminação de interesses medíocres em detrimento da inteligência e da honradez. Estar à margem, portanto, implicava ter uma posição crítica sobre a vida brasileira.
Não por acaso, o primeiro ensaio de “À Margem da História do Brasil”, intitulado “Rio São Francisco Rio sem História”, é dedicado a Teodoro Sampaio (1855-1937), outro engenheiro-escritor. Também um Politécnico, Sampaio escreveu sobre o sertão e o Rio Francisco, além de ter sido um dos colegas que ajudaram Euclides com informações sobre geologia e geografia. Assim, ao dedicar esta conferência realizada em junho de 1923 na Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro a este personagem, Vicente Licínio não apenas reconhece a precedência de Sampaio na descoberta da relevância do rio São Francisco, como também se inscreve numa linhagem de engenheiros para os quais o a reflexão sobre o território era condição indispensável para construção do Brasil.
Como forma de introdução, Vicente Licínio escreve três parágrafos no qual situa o rio como fato histórico-geográfico fundamental para a unidade nacional. Essa afirmação sobre o “tablado geográfico formidável” (Cardoso, 1979, p.3) é típica de sua sociologia geográfica, que valoriza os aspectos econômicos e materiais de uma sociedade, num movimento teórico que encontra ressonância em boa parte da produção posterior à chamada “geração de 1870”. Como evidenciou Wanderley Guilherme dos Santos (Santos, 1978), enquanto o pensamento brasileiro durante o Império destacava as ações e os cálculos dos grandes sujeitos políticos, a imaginação intelectual já treinada nas doutrinas de Augusto Comte e Herbert Spencer enfatizava macro-variáveis como raça, clima e meio. Não foge a este registro teórico Vicente Licínio. Contudo, como se verá adiante, sua leitura dessa matriz intelectual ganha contornos decididamente mais imaginativos e metafóricos.
A primeira seção do texto – “Simplicidade da ignorância” – é acompanhada por uma nota em que Vicente Licínio menciona sua própria viagem ao rio São Francisco, realizada em 1921. Refere-se apenas aos problemas de transporte, mas em outros registros faria menção a uma misteriosa doença que teria contraído por ocasião dessa aventura, provavelmente por picadas de inseto – no caso, o barbeiro. A seção, por sua vez, dedica-se a sustentar a hipótese da complexidade do problema hidrográfico brasileiro, contra os que sustentam ser essa rede simples. Teodoro Sampaio e Euclides da Cunha são convocados como intérpretes autorizados dessa geografia fragmentada e heterogênea, ainda pouco conhecida dos brasileiros. Surge, também, uma primeira menção à Rússia, objeto de imensa curiosidade intelectual para Vicente Licínio, que via nesse gigantesco país certas semelhanças com o caso brasileiro. Neste caso, a referência é à vastidão do território e ao parco conhecimento que ainda se tem dele. Segundo o autor, Rondon teria realizado trabalho análogo ao feito pelos geógrafos russos cinqüenta anos antes, mapeando o interior do país e corrigindo os erros de mapas clássicos.
Esse trabalho incompleto de conhecimento do território interior brasileiro é o que leva Vicente Licínio a usar a euclidiana expressão “sem história” para caracterizar o rio São Francisco. Na tentativa de traçar os rastros perdidos dessa historiografia, o autor enumera suas fontes: Rocha Pombo, Pandiá Calógeras, Capistrano de Abreu, Basílio de Magalhães, João Ribeiro e outros que pontificam entre os grandes historiadores do início do século XX no Brasil. Nessa arqueologia intelectual, sobram elogios para a obra do Império na mesma proporção de críticas à República, que teria esquecido o rio. Percebe-se, portanto, a persistência do argumento antifederalista, que localizava no Império a realização da boa obra da unidade política, ameaçada pelo experimento constitucional de 1891. Não se diferencia neste quesito Vicente Licínio de outros intelectuais dos anos 1920, republicanos nostálgicos do centralismo imperial. No lugar dos grandes políticos conservadores, tem-se, porém, “o tablado geográfico” em que “populações de missionários, bandeirantes e vaqueiros realizaram, com o vigor próprio das coisas anônimas, o embasamento do Império e fixaram o cerne da unidade política indestrutível” (Cardoso, 1979, p.21).
Argumentos semelhantes são apresentados no segundo texto, também uma conferência, mas desta vez proferida em agosto de 1925, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Dedicada ao pai, Licínio Atanásio Cardoso, a conferência inicia-se com a repetição quase literal dos trechos que encerravam a sua apresentação de 1923. Esse procedimento não era incomum nos textos de Vicente Licínio, que, em geral, citava suas próprias obras ou simplesmente repetia expressões e idéias-forças sem grandes preocupações com a originalidade estilística.
Mais uma vez, Vicente Licínio apresenta a tese da influência do São Francisco na integração nacional, sendo este rio considerado o principal elo entre o norte e o sul do país. A preocupação com as bacias amazônica e platina, aliás, seria tema constante da nossa geopolítica, presente em trabalhos mais especializados produzidos na década de 1930 por Everardo Backheuser e Mário Travassos. Como evidenciou Demétrio Magnoli (Magnoli, 1997) em livro sobre o territorialismo brasileiro, a nossa identidade nacional foi pensada como uma projeção de um espaço continental, supostamente natural e indissolúvel. Segundo Magnoli, desde os tempos da Ilha Brasil, nossas elites teriam vislumbrado na solidez desse mundo interior e vasto as raízes de um país-continente destinado à projeção mundial.
Vicente Licínio partilha algo dessa mitologia, em especial quando inicia a primeira seção do artigo com a frase “Que eloquente sermão é por si mesma toda essa terra” (Cardoso, 1979, p.27) , atribuída por ele a um missionário anônimo. Ao sugerir que a verdadeira história do país estaria sendo contada pelas narrações sobre a conquista do espaço físico, o autor eleva o territorialismo a aspecto fundamental do processo histórico nacional. E subscreve a tese da naturalidade do Brasil - continente, argumentando que o país já teria “nascido” com essa vocação, que seria cumprida de forma quase espontânea, pelo movimento das gentes pelo seu interior, ao arrepio das leis e dos desígnios coloniais.
A vinculação entre argumento geográfico e colonização “natural” é reforçada quando Vicente Licínio situa as três histórias dos Brasis, referindo-se às terras altas, aos chapadões e aos tabuleiros, cada um desses espaços articulados a um sistema hidrográfico. Tudo se passa como se o território brasileiro contivesse duas tendências diversas: a fragmentação, incentivada pela disparidade dos espaços, e a unidade, favorecida pelo rio São Francisco, que articularia Norte e Sul. Essa percepção do peso da variável geográfica leva o autor a afirmar, de forma incisiva, que:
A terra é o esqueleto dos organismos sociais, eis a maior e mais harmoniosa descoberta sociológica do século passado, só atingida, com sacrifício, depois de afirmações isoladas ou exageros prejudiciais sobre as raças, os climas e os alimentos humanos (Cardoso, 1979, p.37).
Munido dessa afirmação, Vicente Licínio sustenta a necessidade de conhecer a terra brasileira, num movimento de descoberta do país. O herói dessa empreitada é o sempre citado Euclides da Cunha, e o objetivo dessa aventura político-intelectual não seria o elogio da autenticidade dos homens do interior, mas a integração destes à civilização. Nota-se nessas passagens finais a presença da clássica tensão que estruturou o pensamento social republicano, tão bem descrita por Nísia Lima (Lima, 1999) em seu livro sobre o tema. Segundo Lima, a visão do sertão alimentada por intelectuais como Vicente Licínio e Euclides oscilava entre o elogio da vitalidade autêntica dos espaços interiores do Brasil e a denúncia de sua condição retardatária e doentia. Não fugiu completamente a essa tensão o nosso autor, que a despeito de rejeitar o elogio do sertanejo, não hesita em sugerir que o movimento de descoberta do sertão brasileiro serviria também para “revigorarmo-nos” (Cardoso, 1979, p.40). Isto é, conhecer a terra implicaria um movimento de autoconstrução intelectual, como se o conhecimento dos vastos espaços brasileiros fosse ferramenta indispensável na formação de nossos pensadores.
E o que essa aventura pela terra revelaria? Segundo Vicente Licínio, nossa condição americana e brasileira. Americanos porque não europeus, e brasileiros porque latinos numa terra tropical, na qual gentes de raças diversas se misturam. Essa condição, porém, não nos garantiria uma identidade fixa e estável, pois o Brasil viveria momento de projeção para o futuro, de construção nacional. A tarefa de cognição do espaço ainda não estaria nem perto do final, indicando a dimensão aberta do país e sua inscrição no mundo como uma força nova. A terra, portanto, associa-se à invenção, e não à reiteração de uma essência perdida no tempo (Maia, 2008).
É lógica a inclusão dos dois textos sobre o rio São Francisco logo no início do livro. Afinal, eles fornecem o ponto de vista da terra, a categoria por excelência que irá ativar a imaginação de Vicente Licínio para outros temas. Percebe-se que essa categoria escapa ao registro ortodoxo do determinismo geográfico, constituindo-se como modo de conhecimento da aventura brasileira, metáfora que nos revela aspectos ocultos do país. Nos dois textos seguintes, o autor volta a utilizar, por vezes de forma simples e contida, a categoria da terra, desta vez para analisar o domínio espanhol no Brasil e a figura do regente Feijó. Vejamos.
Em “À Margem do Domínio Espanhol no Brasil”, texto dedicado ao seu amigo e companheiro de causa educacional Acácio França, Vicente Licínio defende a tese de que o período da União Ibérica (1580-1640) foi decisivo para a formação do país. Os principais agentes dessa conquista seriam a terra e seus personagens – bandeirantes, principalmente -, estes últimos dispersando-se pelo sul e pelo norte, dilatando as fronteiras de Tordesilhas e produzindo os capítulos dessa “história oculta”, não disponível nos arquivos portugueses. Nessas passagens, além da companhia sempre segura de Teodoro Sampaio e Euclides, surge a historiografia bandeirante de Afonso de Taunay, evidenciando o apreço de Vicente Licínio pelo trabalho realizado no Instituto Histórico-Geográfico de São Paulo. Essa instituição estava empenhada em consagrar o bandeirantismo não apenas como símbolo da identidade paulista, mas também como chave principal de entendimento do Brasil nação. Entre outros produtores desse trabalho simbólico de consagração, pode-se citar Alfredo Ellis Jr. e seu livro “Raça de Gigantes” (Ellis Jr., 1926).
Se, nos ensaios anteriores, o rio São Francisco surgia como principal agente espacial da unidade brasileira, neste breve estudo sobre os efeitos do domínio espanhol surgem o rio Tietê e o planalto paulista. Outra vez, repete-se a idéia de um rio como caminho interior e propagador das gentes brasileiras, reforçando a tese da necessidade de se conhecer e contar a desconhecida história da terra brasileira.
No ensaio seguinte, “Diogo Antônio Feijó. Um fantasma do segundo Império”, Vicente Licínio novamente recorre à terra para efetivar suas análises. Na primeira seção do ensaio, expõe a história política do padre e regente, elogiando a capacidade de Feijó “excitar” os homens e lançar novas idéias e projetos, mobilizando a vida política. Reconhece a dimensão exígua de seus êxitos, mas busca redimir o personagem de críticas tidas como injustas. A segunda seção, de corte mais teórico-abstrato, retoma o tema da relação entre meio e consciência. Partindo de uma frase do geógrafo francês Élisée Reclus, que caracteriza o homem como a natureza atingindo autoconsciência, Vicente Licínio argumenta que as ações políticas só podem ser compreendidas à luz das energias ocultas disponíveis no meio. No caso brasileiro, o gigantismo do solo e suas características complexas obstruiriam esse processo de consciência de si. Isso impediria, portanto, a formação de uma opinião pública, personagem fundamental de tal atividade coletiva de reflexão e aprendizado.
Mais uma vez, a terra deixa de ser simples registro geográfico e é trabalhada pelo autor como expressão de uma inscrição periférica do Brasil no mundo. Se em outros lugares o ajuste entre ambiente social e consciência nacional é bem resolvido, no caso brasileiro a complexidade de nosso vasto solo implicaria um processo ainda inconcluso de formação. Se nos textos anteriores esse atraso assumia certa qualidade positiva, associada à possibilidade do Brasil de se lançar como um país novo e jovem, no caso deste artigo dedicado a Feijó essa condição está associada a um lamento diante das insuficiências da nossa opinião pública.
Interessante ressaltar também como essa perspectiva analítica relaciona-se aos modos de argumentação sociológica que emergiram a partir da geração de 1870 no Brasil, modos esses afastados do universo da ciência política imperial, excessivamente focada no jogo dos partidos e nas ações dos sujeitos. Tome-se, por exemplo, o caso de Nabuco e seu clássico “O Abolicionismo”, publicado originalmente em 1883. Nessa obra, o escritor pernambucano também discorre sobre a ausência de uma opinião pública forte e consciente no Brasil do Segundo Reinado, embora relacione esse fenômeno ao escravismo, variável fundamental para entender a desorganização da vida político-social brasileira. Importa reter aqui o estilo de interpretação ensaístico, comum a ambos os autores, que analisam longos processos históricos pelo prisma de variáveis sócio-econômicas ou geográficas.
A cognição da terra, porém, também guarda implicações conservadoras, como se depreende das passagens do texto em que Vicente Licínio analisa a questão da escravidão. A interpretação sociológica, focada no tema da organização do ambiente social, termina por levar o autor a julgar o projeto abolicionista no contexto histórico da Regência como precoce, pois supostamente incongruente com as necessidades de produção agrícola. Esse argumento se repetiria em outros artigos e ensaios do autor, operando também na comparação com o caso russo, no qual, segundo Vicente Licínio, a abolição dos servos na década de 1860 teria contribuído para a desorganização da economia rural. O autor nunca aceitaria o argumento moral ou ético, considerando-o produto de ilusões políticas pouco ajustadas às necessidades orgânicas do meio social. Nesse tema, não poderia estar mais distante do exemplo de Nabuco, entusiasta dos imperativos éticos.
O ensaio seguinte, “À Margem do Segundo Reinado”, é um dos mais longos já produzidos por Vicente Licínio. Na edição de 1979, ocupa exatas 56 páginas. Temas e conceitos que surgem de forma episódica em outros momentos são mobilizados pelo autor, num trânsito constante entre análise da história política e teorizações abstratas sobre a inscrição da terra brasileira numa geografia civilizatória mais ampla.
Ao propor mais um ensaio de longa duração sobre o século XIX brasileiro – perspectiva já consagrada por um de seus heróis, Euclides da Cunha -, Vicente Licínio situa sua narrativa de forma crítica às clássicas interpretações sobre o período, que enfatizavam o jogo dos partidos políticos e suas escaramuças. Essa tomada de partido teórico explica-se não apenas por sua formação positivista, como também pelo já referido espírito sociológico insuflado pela geração de 1870. Além do tema geográfico, o autor recorre ainda a argumentos econômicos, como se pode ler no longo parágrafo que abre a seção “Economia na História”:
O atraso, na história dos povos, das referências aos problemas e condicionamentos econômicos é apenas o reflexo da lentidão com que teve o homem de aguardar fosse a sua atenção voltada para os problemas econômicos e sociais. O retardo da sintetização da economia política como ciência explica, pois, a ingenuidade corriqueira das histórias dos povos, em que, por largo tempo, foram os organismos sociais apresentados como corpos, vivendo apenas de idéias e sentimentos, sem que nesses relatos interviesse o exame das necessidades potentes por aqueles mesmos criados (Cardoso, 1979, p.80)
Como se percebe, Vicente Licínio associa as explicações econômicas a uma sociologia positivista dos organismos sociais. Assim, acredita que a análise histórica deveria buscar entender as necessidades orgânicas do ambiente em que os homens vivem, atravessando o véu das lutas parlamentares e das intrigas palacianas. Segundo o autor, boa parte das interpretações disponíveis – Rocha Pombo, Nabuco, Oliveira Lima e mesmo Euclides – terminava por não compreender o enigma da queda do Império, evento tido como surpreendente.
Para Vicente Licínio, os desequilíbrios da sociedade imperial brasileira seriam explicados pelo problema da organização do trabalho sob o regime servil. A recusa da estratégia de colonização pelo fluxo imigratório teria levado o Brasil a se afastar do reino do moderno, caracterizado pelo autor pelo binômio “máquina e carvão”. Ao optar pela continuidade do trabalho escravo, as elites dirigentes teriam contribuído para a ausência de organização e a debilidade do aparelhamento econômico.
Todavia, não são apenas os aspectos econômicos que perfazem a sociologia materialista de Vicente Licínio. A seção “O homem e meio” expõe sua crença na dimensão reveladora da geografia. A afirmação que abre essa parte é ilustrativa do modo como o autor empregava esse raciocínio, tão comum ao positivismo europeu do século XIX, mas tratado de forma original por um periférico pensador no Brasil:
As relações de condicionamento recíproco entre o homem e o meio adquirem no Brasil intensidade ou desfalecimento, desconhecíveis na Europa Ocidental, terra em que primeiro os autores falaram dessas mesmas relações interessantíssimas compendiadas pela sociologia. Só a Rússia, entre os povos civilizados, lembra o caso brasileiro. Todavia, o exemplo japonês seria mais útil, mais oportuno, mais especialmente desejado se pudesse ser repetível no Brasil (id, ibid: p.93)
Desse breve parágrafo podem-se extrair três importantes elementos analíticos caros ao pensamento do autor. Em primeiro lugar, a visão da geografia como uma variável com peso especial no mundo periférico, em que a terra e o espaço agem com muito mais intensidade do que na Europa Ocidental. Ou seja, Vicente Licínio está afirmando que a relação entre homem e meio não é simples cópia ingênua de uma teoria européia, mas uma característica expressiva do processo civilizador brasileiro. Isso conduz ao segundo elemento, relativo ao próprio estatuto do argumento geográfico. Como afirmei em outra ocasião (Maia, 2008), esse argumento tinha forte carga metafórica, não operando apenas sob o registro do determinismo científico. O “meio” para Vicente Licínio pode significar tanto o espaço físico, como as características mais gerais de sociedades cujos processos formadores não se regularam pelos mesmos princípios dos países centrais. Isto é, a terra é uma forma de cognição do mundo periférico. Evidencia-se essa perspectiva ao analisarmos o terceiro elemento, referente ao universo civilizatório no qual o autor insere o Brasil. Rússia e Japão são países de configuração geográfica radicalmente diversa, mas se aproximam como países de unificação nacional tardia, nos quais as elites tiveram que lidar com um ambiente novo, habitado por povos não-ocidentais.
Esse estranho universo civilizatório delineado por Vicente Licínio torna-se mais nítido quando o autor afirma que:
O confronto com a Inglaterra, com a França ou com a Alemanha é muitas vezes inoportuno e retórico. Ao contrário, o caso japonês, pela vitória de realizações esplêndidas de um povo de mestiços em tempo diminuto, e o caso russo pela obra, embora falhada em vários pontos de civilizamento de um conglomerado de raças, podem nos ser imensamente fartos de lições, máxime corrigido o paralelo com o exemplo opulentíssimo da democracia norte-americana (Cardoso, 1979, p.93)
Rússia, Japão e Estados Unidos partilham o mesmo conjunto civilizatório, por se diferenciarem do Velho Mundo e terem que lidar com processos recentes de formação nacional, em que a modelagem de povos orgânicos e coesos foi atividade mais crítica e aguda do que nos casos clássicos. Por isso o Brasil é incluído nessa sociologia comparada. Trata-se de uma sociedade inorgânica, em que esse trabalho de organização nacional não encontrou bom termo. Explica-se, portanto, o severo julgamento de Pedro II por Vicente Licínio. Por não ser capaz de exercer esse papel de liderança modernizadora, o Imperador teria se limitado ao papel de soberano culto e ilustrado, não realizando, portanto, a obra de construção que demandaria ação e genialidade. O herói esquecido do autor é justamente Tavares Bastos, esse enérgico americanista (Vianna, 1997), crítico da razão estatal que caracterizava a hegemonia conservadora e entusiasta da cultura técnica que via como expressão da modernidade.
Perceba-se, portanto, como é incorreta a classificação de Vicente Licínio como um representante ilustre do ruralismo brasileiro. Seu apreço pela terra não diz respeito a uma valorização da agricultura como única atividade econômica disponível para o Brasil, mas se relaciona a uma percepção da posição periférica do Brasil no mundo moderno. De outra forma, como explicar essa passagem, em que lamenta as falhas de Pedro II ?
Se ao invés do sânscrito, conhecesse o valor da máquina na economia dos povos modernos, se, em lugar de se cartear com os egiptólogos, ele cuidasse em ouvir a opinião dos técnicos que poderiam orientar o problema básico dos combustíveis no Brasil, se, ao contrário dos professores de tupi ou de árabe, ele mantivesse junto de si professores de energia, homens que lhe explicassem a decadência dos povos ibéricos, a evolução dos anglo-saxônios, o ressurgimento germânico e a obra admirável de assimilação e organização norte-americana, então – assim o creio – bem outra haveria de ter sido a utilidade de seu reinado longo no tempo, mas efêmero nas verdadeiras realizações que influem ou que decidem do anonimato dos povos (Cardoso, 1979, p.96-7)
Estamos diante, portanto, de uma formulação que não opõe terra e modernidade, como se aquela fosse apenas uma barreira tradicional ao avanço da civilização das máquinas. É claro que Vicente Licínio mobiliza o argumento territorial para dar conta da dificuldade de organização nacional em uma sociedade por demais vasta e inorgânica. Entretanto, também emprega a idéia de terra para traduzir a potência inventiva e criativa associada a um espaço periférico, que pode se afirmar no mundo de uma maneira nova. Sua sociologia comparada não se limita a coletar casos “desviantes”, mas sugere que estes perfazem uma nova geografia civilizatória.
Esta visão positiva da equação terra-modernidade pode ser mais bem analisada na seção “Democratização pela terra”, na qual Vicente Licíno retoma a reflexão mais abstrata sobre espaço e sociedade. Ao atentar para a influência do meio físico sobre os homens, afirma “Não me refiro, é bem de ver, aos estudos tornado clássicos de geografia social. Reporto-me às observações de modificabilidade social de um mesmo povo ao contato com terras novas” (id, ibid: p. 98). Percebe-se nessa passagem a qualidade metafórica da terra, que resiste ao determinismo geográfico clássico, convertendo-se num modo de narrar a emergência de novas formas de vida em territórios recentes, ou o que o autor chama de “a melhoria das raças velhas em terras novas, o rejuvenescimento da estirpe, o revigoramento da vitalidade dos povos sob o estimulante de condições cósmicas propícias” (id, ibid: p. 98). E o melhor exemplo dessa democratização pela terra seriam os Estados Unidos.
Ao sustentar que a democracia americana seria produto da colonização livre do território e da “força direta da terra nova” (id, ibid: p.98), Vicente Licínio ecoa temas clássicos do próprio imaginário norte-americano. A fronteira foi o grande personagem dessa mitologia nacional, operando como variável fundamental para os historiadores postularem a exemplaridade daquele país. Desde o ensaio clássico de F. Jackson Turner publicado em 1893 e intitulado The significance of frontiers in American history, a crença na capacidade democratizadora do espaço livre e aberto passou a marcar não só a experiência daquela sociedade, mas a sua própria autocompreensão intelectual. Mais recentemente, esse tema foi relido no seio da tradição política radical, na obra de Antonio Negri sobre o poder constituinte (Negri, 2002). Neste texto, o pensador italiano interpreta a potência democrática da doutrina jeffersoniana – e suas contradições – a partir dessa possibilidade de contínua expansão do povo pelo território livre, associando-a a promessa de um horizonte político que nunca se fecharia aos desejos e à imaginação dos homens.
É certo que Vicente Licínio não se inscreve nessa linguagem democrático-radical, mas se aproxima de outros ensaístas e pensadores brasileiros que traçaram comparações entre a terra e a democracia no Brasil e nos Estados Unidos. Além do clássico livro de Vianna Moog que comparava bandeirantes e pioneiros (Moog, 1954), pode-se citar a própria obra de Sérgio Buarque de Holanda “Caminhos e Fronteiras” (Holanda, 1957), que interpretação recente considera ser construída em torno de uma releitura do tema da fronteira (Wegner, 2000). A relação entre terra e democracia na visão de Vicente Licínio relaciona-se a uma ordem republicana baseada no trabalho livre e racional, em que renovadas elites dirigentes desempenham papel de controle e liderança. Não se trata, como se vê, de uma linguagem política radical e popular.
No Brasil, Vicente Licínio localiza no café a expressão da potência republicana da terra brasileira, pois o predomínio do cultivo paulista teria propiciado uma maior modernização do país. Vê-se, portanto, que o autor pensa o conceito de “democratização pela terra” como indicador de um processo de transformação baseado nas transformações econômicas. Isso explica seu repúdio pelo republicanismo “abstrato”, associado à experiência francesa e tido como simples corpo doutrinário sem lastro na vida econômica ou no ambiente social em que os povos vivem. Como se nota, Vicente Licínio nunca abandona esse pressuposto positivista, que limita a ação dos homens ao determinismo das estruturas materiais da vida social.
Nessa geografia americana da terra, o Brasil seria uma caso médio. Não tão moderno como a norte-americana, nem tão instável como as colônias hispânicas. Em um país de escravos e de café, conhecemos um processo de abertura moderada da terra, não tão agudo quanto no caso exemplar, de onde o autor retira seu conceito, mas suficientemente estável para nos diferenciar da instabilidade hispânica. Como se nota, a visão de Vicente Licínio sobre o Império é característica da geração de republicanos críticos, que via com nostalgia a estabilidade do Segundo Reinado e seu desenvolvimento orgânico, comandado por elites esclarecidas.
Entretanto, a seção seguinte, intitulada “A ilusão dos partidos”, é dedicada à denúncia do sistema partidário no Segundo Reinado, tipo pelo autor como pouco diferenciado e desvinculado de ideais orgânicos e construtores. Essa crítica hoje não nos é desconhecida, e associa-se às interpretações do Brasil que proliferavam nas décadas de 1920 e 1930. Nessas interpretações, o conceito de “orgânico” era utilizado para lamentar a ausência de reais conexões entre a política e o meio social do período. Nas duas seções seguintes, esta crítica direciona-se para as lideranças políticas, contribuindo para uma espécie de sociologia dos intelectuais baseada na hipótese da ausência de “organicidade”. Salvam-se dessa artilharia homens como Mauá e Tavares Bastos, este último tido como exemplo quase solitário de um político do período capaz de pensar o “corpo social brasileiro” através do estudo objetivo dos problemas econômicos da vida nacional. Novamente, essa visão negativa da atitude “palavrosa” da inteligência brasileira era comum a homens da geração de Vicente Licínio, que buscavam justamente estabelecer uma conexão pragmática entre pensamento e circunstâncias nacionais. Não à toa, o isolamento de Tavares Bastos é comparado ao isolamento de Alberto Torres, o nomeado “pai espiritual” da geração de republicanos críticos. E, por que não dizer, este era o isolamento sentido pelo próprio Licínio, cuja sensibilidade fora fortemente marcada pelo sentido urgente de missão regeneradora conferido pelo positivismo.
Ao final da seção “A realidade do caos”, o autor traz à cena, novamente, o problema da terra, desta vez numa chave negativa, para explicar essa desconexão entre pensar e agir. Ao afirmar que “No Brasil, a terra é grande demais. Empequenece o homem, depois esgota-o. Não há continuidade de seiva, não há ritmo de vida, não há sequência de energia” (Cardoso, 1979, p.110), Vicente Licínio está novamente apontando para a dificuldade de se traduzir a energia da terra numa forma de autoconsciência formadora da nacionalidade. Como se percebe, os imensos espaços brasileiros oscilam entre a realidade do caos e a possibilidade utópica de uma nova civilização, marcada pela invenção e pela sua qualidade “americana”. Esse tema surge novamente em outras duas seções, “Política Exterior” e “O ambiente de Pedro II”, em que o autor aponta o efeito dos fatores espaciais na conformação da nação. Assim, a política supostamente expansionista do período monárquico é criticada, enquanto o “congraçamento republicano” é elogiado como resultante quase natural da irmandade de povos marcados pela “força da terra”. Do mesmo modo, Vicente Licínio acredita que as conquistas territoriais artificiais foram abandonadas, consolidando-se apenas as fronteiras derivadas da expansão supostamente “espontânea” e orgânica dos homens pelo tablado geográfico.
Já a avaliação de Vicente Licínio sobre Pedro II é relativamente sóbria, e escapa à valorização do poder Imperial que se vê num Oliveira Vianna, por exemplo. Embora ressalte a honestidade do Imperador e seu amor pelo país, Vicente Licínio elege a geografia como principal responsável pela grande obra imperial: a unidade nacional. Novamente o rio São Francisco surge como grande agente integrador do país, mas desta vez o autor vai mais longe e afirma que:
(...) o Brasil era todo igual: um só todo unificado pela mesma carência de recursos e riqueza de abandono, pela mesma vastidão do latifúndio, pelo achatamento igual de todo homem desamparado na luta contra o deserto da distância... A maior fraqueza do caos redundava na melhor força de coesão: diferente pela costa afora, o Brasil era igual por dentro... Igual porque não evoluía como o litoral, a ponto de tornar-se diferente... Lembrava o homogêneo das nebulosas (id, ibid: p.119-120).
Nessa bela expressão final – o homogêneo das nebulosas – Vicente Licínio lograva sintetizar sua visão sobre os efeitos da espacialidade na História brasileira. Força pujante e incontrolável, metáfora de uma energia típica de sociedades jovens, a terra não se traduzia ainda em inteligência organizadora, embora exercesse lenta e progressiva ação unificadora. Pedro II poderia ser o líder a realizar essa tarefa de interpretação da terra. E para isso, tinha qualidades, na visão de Vicente Licínio: “(...) homem admirável” (id, ibid: p.122) e “observador culto e sagaz” (id, ibid: p.123), Pedro II “(...) teceu, incontestavelmente, neste país imenso de analfabetos e incipiente de cultura, um dos poucos mantos imperiais que a história pode admirar sem menosprezo da dignidade humana” (id, ibid: p.125). Além disso, “tolerante em tudo, Pedro II exerceu uma ditadura única – sem hesitações ou digressões protelatórias, como alvitrou Oliveira Lima – a da moralidade” (id, ibid: p.124).
Entretanto, o Imperador não foi a personalidade orgânica e construtora desejada pelo autor. Afinal, “as facilidades de leitura, farta e mal orientada, ausentando o seu espírito da realidade brasileira, propiciaram, porém, os seus maiores erros e orientaram as melhores de suas fraquezas” (id, ibid: p.126). Este longo ensaio termina de forma algo melancólica, como se Vicente Licínio estivesse lamentando, na figura de Pedro II, a ausência de intelectuais orgânicos capazes de analisar objetivamente a realidade nacional e interpretar essa contraditória força da terra, origem tanto de nossos problemas, quanto de nossas melhores utopias. Homem culto, nobre e patriota, não soube porém Pedro II empreender essa gigantesca tarefa atribuída pelo autor aos construtores do país. Onde, portanto, encontrar o fio da história, que completaria a galeria de heróis licinianos? O final de “À Margem da Historia do Brasil” é uma boa indicação de uma possível resposta.
O livro é fechado com uma seção intitulada “Euclides da Cunha”, composta por três capítulos, datados todos de agosto de 1925. Os dois primeiros são pequenos ensaios sobre o autor e sua inscrição na tradição intelectual brasileira, enquanto o último, intitulado “In Memoriam”, foi concebido como uma homenagem à memória de Euclides, realizada ao lado do túmulo do escritor, sob convite do Grêmio Euclides da Cunha.
No primeiro capítulo da seção, “A maior descoberta de Euclides”, Vicente Licínio elogia o escritor por ter realizado a “descoberta” do São Francisco como elemento central da formação brasileira. Entretanto, censura-o por não ter perseguido essa pista, calando-se sobre o tema em escritos posteriores a Os Sertões. Após novamente sublinhar a importância dessa variável, Vicente Licínio apresenta a Guerra do Paraguai como outra causa decisiva para a consolidação da unidade nacional, por ter criado um sentimento de unidade no sacrifício bélico. Note-se certa contradição com o que o próprio autor afirmou em sua crítica à política externa do Império, tida como “imperialista” e pouco afeita aos laços de congraçamento americanos.
No segundo capítulo, intitulado “O erro de Nabuco sobre a profecia de Mitre”, Vicente Licínio parte de um discurso feito pelo escritor e político pernambucano em que este, analisando um comentário feito pelo argentino Bartolomeu Mitre, lamentava a ausência de um livro que sintetizasse a vida nacional. Comentando esse diagnóstico de Nabuco, Vicente Licínio argumenta que o autor de “Um Estadista do Império” não teria atinado com toda a densidade do referido comentário de Mitre, que estaria se referindo a ausência de um livro que traduzisse a terra latino-americana e sua consciência em formação. O próprio Nabuco não teria produzido essa obra, por ser “europeu demais para compreender a angústia criadora de Mitre” (id, ibid: p.136). Após elogiar a obra de Nabuco sobre o Império, argumenta ferinamente Vicente Licínio que
(...) esquece apenas o leitor estar no Brasil, tal a serenidade do discurso e a elevação do cenário político por ele apresentado, tal a ausência de referências à terra em sua energia selvática bravia, tal, finalmente, a escassez de dados relativos aos tipos de nossa raça em formação caótica (id, ibid: p.136).
Euclides seria, portanto, o mestre inaugural dessa linhagem de pensadores da terra, que incorporaria também Alberto Torres e Farias Brito. O fecho do capítulo é composto por uma longa citação de outra obra do próprio Vicente Licínio sobre os três citados, como a atestar que Licínio, ele próprio, incluía-se nesse panteão de homens da terra, intelectuais construtores da nacionalidade, mas situados à margem do processo político brasileiro. Esse recurso retórico, como já se viu, era comum ao nosso pensador. Ao enfatizar as derrotas e a posição marginal de seus heróis, sempre suplantados por idealistas utópicos e não-orgânicos que pouco compreendiam o país real, Vicente Licínio os comparava ao próprio Brasil, sociedade periférica ainda em formação, cuja energia da terra nova não fora ainda adequadamente sintetizada.
Finalmente, a homenagem à memória euclidiana termina com um longo discurso em que Vicente Licínio parte de uma banal anedota que evidenciaria a ingenuidade cultural do escritor de Os Sertões para tecer um painel geral sobre as qualidades próprias da vida intelectual no Brasil. Segundo ele, “(...) a inteligência nasce virgem no Brasil” (id, ibid: p.139). Entretanto, ao invés de extrair dessa afirmação um prognóstico negativo sobre o futuro do país, Vicente Licínio faz o elogio dessa condição existencial dos brasileiros, povo jovem que não conheceu o longo processo de sedimentação histórica de tradições e conquistas civilizatórias. Na Europa, o gênio nasceria através de longas transições, depurando séculos de avanços de forma lenta e progressiva, enquanto no Brasil – do mesmo modo que no caso russo, obsessão do autor – a genialidade surgiria de forma abrupta, dado o ineditismo de nossa existência.
Interessante, porém, notar o modo singular com que Vicente Licínio mobiliza um tema clássico de sua geração e das que o precederam: a suposta “má formação” do povo brasileiro, produzido pela mestiçagem e distante de qualquer pureza cultural racial. Como já mostrou Lilia Schwarcz (Schwarcz, 1993), essa crença negativa sobre nossa herança era moeda corrente no pensamento social brasileiro entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas republicanas. Numerosos intérpretes, entre os quais o próprio Euclides, perderam-se em elaborados juízos sobre a má qualidade racial de negros, mulatos e mestiços. Vicente Licínio retoma esse tema de maneira singular, ao afirmar que:
Oriundo de mestiçagens inferiores – o colono português geralmente analfabeto, o índio catequizado às pressas e o negro animalizado pela escravidão – nós, brasileiros, apresentamos, étnica e socialmente, problemas de todo novos, cuja solução entregue ao beneficiador do planeta, o sol, haverá de pôr por terra o artificialismo de doutrinas, teorias e sistemas batidos até agora nos estaleiros espirituais da Europa (Cardoso, 1979 p.140).
Nossa “mestiçagem inferior”, portanto, não seria derivada de herança biológica ou cultural, mas das precárias condições sociais associadas ao processo colonizador. Do mesmo modo, essa mestiçagem desafiaria as teorias européias, não se convertendo em caso “desviante” ou anormalidade a ser explicada por esquemas racialistas tradicionais. Após citar o caso japonês como exemplo da dinâmica secundária exercida pelos supostos fatores raciais, Vicente Licínio argumenta que “Nós seremos talvez, de futuro uma reação concreta mais formidável ainda às teorias abstratas dos povos brancos europeus” (id, ibid: p.140).
Essa inversão na tradicional avaliação que se fazia da nossa condição racial permite ao autor apresentá-la como uma espécie de “vantagem do atraso”, qualidade de um povo que chegou tardiamente ao universo moderno. Afinal, diz Vicente Licínio:
(...) possuímos, de fato, a ‘virgindade da inteligência, placas cerebrais’ que não sofreram hereditariamente impressões espirituais trabalhadas por gerações anteriores; assimilamos, muitas vezes, quero aqui dizer, a inteligência fecunda e inconsciente da própria terra (id, ibid: p.140).
Ou seja, a ausência de tradições intelectuais sólidas converte-se em vantagem, pois permite aos brasileiros não apenas serem originais num mundo cansado e envelhecido, mas também lhes dota de uma inteligência diferente, mais pragmática e funcional. Diz o autor:
Um inventor, um mecânico hábil europeu é geralmente filho, senão neto, de um homem que já se ocupava em outras máquinas. No Brasil, ao contrário, os melhores mecânicos tiveram que ver e aprender tudo sem nenhuma assimilação ou incitação hereditária paterna. Quase todos os maquinistas de nossos navios vieram do norte, onde haviam sido marujos tão-somente. Da jangada nordestina ao transatlântico moderno, quantos séculos haverá, no entanto, de intervalo, fundidos em duas décadas apenas na vida de um homem? (id, ibid: p.141)
Essa última frase, construída na forma de pergunta retórica, nos permite traçar outra conexão russa, esta perdida pelo autor devido ao seu escasso contato com a literatura marxista. Anos antes, mais exatamente na publicação de seu livro 1905, Leon Trotsky concebia sua tese sobre o desenvolvimento desigual e combinado, construída a partir de uma constatação da natureza periférica da sociedade russa. Segundo Trotsky, a Rússia no início do século XX estava completamente exposta ao universo do grande capital europeu, que lhe chegava de forma abrupta como um processo externo, mas que produzia significativas concentrações urbanas e um operariado vigoroso. Ao mesmo tempo, essa penetração capitalista, conduzida de fora para dentro, conviveria com um mundo rural tradicional e atrasado, sob comando de uma nobreza conservadora. Trotsky extrairia desse diagnóstico sua conhecida tese da revolução permanente, estratégia destinada a entrelaçar luta democrático-popular e socialismo. Importa reter aqui o retrato feito pelo revolucionário russo dessa periferia exemplar, ao mesmo tempo inscrita no mundo das máquinas e no universo rural secular. A Rússia convertia-se, portanto, em lugar crítico por excelência, geografia de onde partiria de forma eficaz o programa revolucionário global.
Vicente Licínio passava longe do marxismo e do raciocínio dialético, mas é notável como sua visão sobre a formação periférica do Brasil também transforma o país num território excepcional para formular a crítica à velha ordem. No registro de Licínio, o Brasil seria o terreno no qual sertanejos conduziriam complexas máquinas, animados por uma inteligência pragmática e distante do cerebralismo cartesiano. Na famosa formulação de Trotsky sobre as “vantagens do atraso”, consolidadas na sua obra de 1930 sobre a revolução russa, os países periféricos combinariam arcaísmo e modernidade, apropriando-se de forma mais aguda de procedimentos e tecnologias que, nos países centrais, resultavam de longo e homogêneo processo de acumulação histórica.
Falta a Trotsky, entretanto, a conexão americana, esta retida por Vicente Licínio. Na visão de nosso autor, o moderno não seria alcançado pela revolução, mas pelos efeitos exercidos pela máquina e pela fábrica sobre o comportamento dos homens. Um dos heróis de Licínio era Henry Ford, tido como expressão de uma nova forma de vida que derivava da ação prática e da democracia do homem comum. Nesse sentido, a visão periférica liciniana é temperada pela sua crença americanista, aproximando-o do registro de Antonio Gramsci, marxista italiano que vislumbrou na experiência fordista o surgimento de uma nova forma de organização da vida moderna. Os intelectuais, na perspectiva de Vicente Licínio, seriam os construtores da nacionalidade em formação, mas deveriam se mover no terreno moderno, valendo-se da educação pública e da organização racional do trabalho para produzir a transformação do país.
Os capítulos finais de “À Margem da História do Brasil” nos permitem entender por que Euclides da Cunha é retratado por Vicente Licínio como “(...) o fotógrafo da alvorada da consciência da nacionalidade de nossa raça” (Cardoso, 1979, p.143). Evitando o caminho conhecido da cópia cultural e nutrindo-se da virgindade da terra brasileira e americana, Euclides seria a síntese avançada de nossa condição histórica. Ao elegê-lo como uma das figuras principais no seu panteão, Vicente Licínio procurava também se inscrever nessa genealogia de intérpretes da terra, homens que se encontravam “à margem” do processo político brasileiro, mas ao mesmo tempo na vanguarda de sua decifração. Não foi outra a tarefa a que Licínio se dedicou, até que sua morte trágica em 1931 interrompesse sua hermenêutica da nacionalidade.
“À Margem da História do Brasil” teve quatro edições, todas publicadas pela companhia Editora Nacional. Além da primeira em 1933, houve uma segunda em 1938, uma terceira em 1974 e uma última em 1979, sempre no âmbito da coleção Brasiliana. Esta quarta edição inclui o prólogo à segunda edição, escrito por Acácio França, e a apresentação da edição de 1974, intitulada simplesmente “Os Editores”.
O prólogo de Acácio França é praticamente uma reprodução integral do artigo publicado por este intelectual em 1933 no Boletim de Ariel, na ocasião da publicação da primeira edição de “À Margem...”. Nele, França tece elogios a Vicente Licínio e o situa ao lado de outros heróis tanto da pedagogia moderna (como John Dewey), quanto do pensamento latino-americano (Sarmiento, Alberdi, Ingenieros e outros) e brasileiro (Euclides, Alberto Torres, Tavares Bastos, José Bonifácio etc.). Já a apresentação da terceira edição é mais econômica, limitando-se a elogiar a relevância da obra e apresentar sua estrutura de seções e capítulos.
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