A Meteorologia Brasileira – esboço elementar de seus principais problemas
Autor: Joaquim de Sampaio Ferraz
Ex-Diretor do Instituto Meteorológico Brasileiro. Honorary member da Royal Meteorological Society, Membro da American Meteorological Society.
Considerações Gerais
A obra objeto desta resenha é ainda considerada como referência no campo da Meteorologia, pelo ineditismo e abrangência de sua proposta, pela qualidade de suas informações, pela forma didática com que são expostas e sobretudo pela amplitude da bibliografia apresentada. É uma obra de fôlego, considerada até hoje como um clássico na área.
Seu autor declara no prefácio da primeira edição: “Abrangemos no volume, embora que superficialmente, toda a meteorologia elementar, como ciência aplicada, dividindo a matéria nova, para torná-la mais atraente, sugestiva, e menos desacorde com as exigências de sua exploração pelos institutos oficiais”.
Partindo do pressuposto de que o Estado é o exclusivo empresário da ciência meteorológica e que, por isto mesmo, há sempre carências de políticas adequadas de recursos humanos e materiais, o autor, fundador do Instituto Meteorológico Brasileiro e seu primeiro diretor, faz sérias criticas, aponta problemas e sugere soluções.
Com estilo bastante pessoal – embora se trate de um compêndio científico – o autor se permite fazer juízos de valor sobre instituições, autores e equipamentos sem se preocupar com o distanciamento de praxe, talvez por não estar mais vinculado ao governo, podendo assim se colocar livremente. Expressa-se muitas vezes de forma coloquial, estabelece paralelos e se permite liberdades poéticas que dão ao texto sabor especial.
Na introdução o autor coloca: “Que tem a Meteorologia de que trata este volume, com esta avassaladora superfetação brasileira? O Estado e os meteorologistas. O que impede o Estado de cumprir a sua parte? A sua falta de coerência, e de continuidade, na ação construtiva. Donde provêm os males? Da vaidade de um dia da caça à consagração efêmera e fátua, só alcançada nas notícias de reorganizações, e não no trabalho real dos organismos reajustados”.
Deste modo, ele oferece o livro “aos dirigentes sinceros e aos meteorologistas que quiserem fazer ciência e aplicá-la”. E conclui a introdução recomendando: “o rigor na observação; o cuidado na coordenação; a cautela na generalização; a fertilidade na hipótese; o engenho e a imparcialidade no exame de sua validade; a perícia na sua confirmação ou revisão; e o bom senso nas derradeiras interpretações”.
A Meteorologia Brasileira alcança bastante divulgação dentro e fora do Brasil, como atesta a correspondência de autoridades internacionais anexada pelo autor ao final da obra.
O projeto do livro nascera na década de 1920, mas não foi possível compatibilizar as atividades administrativas às da pesquisa sistemática e aprofundada. Segundo suas próprias palavras:
Poderíamos escrever um livro e não um simples capítulo sobre a adaptação que fizemos no Brasil dos processos clássicos de previsão do tempo sinótico em curto prazo, criando regras e indicações que têm servido até o presente e, naturalmente, dependentes, quanto a sua valia relativa e boa aplicação, da habilidade e da aptidão pessoal do previsor. Embora exercitados na prática previsora europeia e americana, cujos maiores centros frequentamos, e malgrado certa analogia entre a circulação atmosférica da Austrália, muito tivemos que aprender aqui mesmo, durantes anos de trabalhos sinóticos. Depois vieram as lutas da direção, a papelada burocrática, as solicitações cientificas de outro gênero, dentro da própria Meteorologia, e nunca mais voltamos à investigação profunda e assoberbante de outrora.
Só após seu afastamento definitivo do serviço público é que consegue completar o seu trabalho, que será editado em 1934. Já para a segunda edição, o autor guarda o mesmo escopo, apenas acrescido de alguma bibliografia mais recente.
O período compreendido entre as duas edições foi um período de profundas transformações. A Segunda Guerra Mundial trouxera grande desenvolvimento para determinados setores da meteorologia, e a nova edição procura incluir as conquistas feitas pela área e o desenvolvimento das principais escolas, sobretudo as escolas sinóticas: “Outra excelente escola sinótica, formada com o advento da Grande Guerra (que para a Meteorologia não foi madrasta) é a francesa”. O autor ressalta também a escola norueguesa, com destaque para o núcleo de Bergen.
O autor, partindo da assertiva de que “a Meteorologia tem inúmeras aplicações, de vez que a terra está envolta pela atmosfera, extremamente instável, tão complexa quanto ativa e com grande poder influenciador”, propõe uma divisão de campos de estudo que se desdobram em capítulos, a partir dos quais desenvolve seu trabalho.
São 34 capítulos que englobam as mais diversas especializações, assim como recomendações sobre o ensino da Meteorologia no Brasil, a admissão e promoção de técnicos, a técnica administrativa.
Em cada capítulo, há indicação bibliográfica específica, análise das condições de trabalho em cada área, no Brasil e no exterior, e os principais avanços e/ou problemas. O livro todo é bastante autobiográfico, trata da Meteorologia Brasileira, mas trata também da participação do autor na construção desta ciência no Brasil. É o relato minucioso de um cientista brasileiro, lutando para impor à sociedade do seu tempo recursos científicos até então inimagináveis. O autor abre uma série de novas perspectivas, de campos de trabalho, mas critica o descompasso do Brasil, se comparado aos países europeus, à América do Norte e, em alguns aspectos, a países da América do Sul.
A parte final do livro informa e sugere a organização do serviço de meteorologia da união e de serviços meteorológicos estaduais. Trata da formação profissional e do ensino da Meteorologia no Brasil, da admissão e promoção de técnicos e, finalmente, de aspectos administrativos.
Durante sua gestão à frente do Serviço Meteorológico, publicou seu projeto organizacional e administrativo (Regulamento da Diretoria de Meteorologia) procurando dar transparência ao processo que então se implantava. Acreditava na racionalização do trabalho, na permanente luta pelo aperfeiçoamento, na busca da cooperação com instituições nacionais e estrangeiras, no intercâmbio como recurso para alcançar a excelência.
Comentários sobre os principais capítulos
Sampaio Ferraz divide o estudo da Meteorologia em dois grandes campos: pura e aplicada, cabendo em cada um deles muitas subdivisões que serão analisadas nos diversos capítulos do livro.
A Meteorologia Pura, assim como a Aplicada, se divide no campo observacional e no campo da investigação, incluindo aí estudos e pesquisas, equipamentos e métodos de observação.
Três são suas subdivisões: espaciais, qualitativas e temporais.
As espaciais tratam da litosfera (meteorologia de solo e subsolo), da infra-troposfera (climatologia), da hidrosfera (meteorologia marítima), da tropo e estratosfera (aerologia), da ultrasfera – com três áreas e regiões cósmicas subdivididas em ozonosfera, ionosfera e auroras – e finalmente das regiões cósmicas (meteorologia cósmica).
A Meteorologia Aplicada, exploratória, observacional e investigante está dividida em: previsão do tempo de curto e longo prazo, bioclimatologia, meteorologia agrícola, higrometria, meteorologia aeronáutica, meteorologia militar, meteorologia comercial e industrial e, por último, a meteorologia legal.
A abrangência do campo de estudo abre perspectivas para o futuro e aponta para novos campos, muitos deles ainda inexplorados no Brasil.
Segundo Sampaio Ferraz, a Meteorologia “age sobre o solo e parte do subsolo, sobre a vida animal e vegetal, e até o que nos vem de fora. Demais, a ciência do ar abrange o estudo das radiações, solar e terrestre, energias basilares, agentes de incalculável raio de ação. Daí e consequentemente, o variado entrelaçamento da meteorologia com as próprias atividades humanas, teóricas ou práticas”.
Nos primeiros dois capítulos, sobre a circulação geral da atmosfera e o mesmo fenômeno no Brasil, notamos a imensa importância do assunto para o qual o autor dá atenção especial ao desenvolver o seu trabalho, aprofundando um pouco mais o tema pela importância de que se reveste, sendo o ponto de partida para a ciência meteorológica. Os conhecimentos disponíveis sobre o tema são apresentados e comentados, muito embora sem os recursos de que dispomos hoje.
A inexistência dos satélites e sondas meteorológicos, da informática, dos equipamentos cada vez mais sofisticados e de maior alcance não invalida as assertivas de Sampaio Ferraz sobre a importância e complexidade do tema; “o que sabemos dessas circulações é muito pouco e fracionado dado à impraticabilidade da observação em todo o oceano aéreo”.Hoje, decorridos cem anos da criação da Diretoria de Meteorologia e Astronomia, do Ministério de Agricultura, Indústria e Comércio, o Brasil possui uma rede significativa de monitoramento da atmosfera, ampliada com a adição de estações meteorológicas automáticas, amplo parque computacional, utilizando modernas técnicas de previsão do tempo e do clima. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) possui uma rede de monitoramento com 500 estações automáticas capaz de fornecer dados, de hora em hora, aos usuários que acessam a página eletrônica na internet. Nos anos 1920 e 1930, os dados disponíveis eram realmente parcos e esporádicos. A maior parcela das regiões polares e dos oceanos, grandes tratos continentais e quase todas as partes superiores da atmosfera continuavam virgens quanto à observação meteorológica.
Seria irrisória a tentativa de enumerar os problemas pendentes da circulação da atmosfera. Eles são problemas capitais da ciência meteorológica, portanto, incontáveis. Disse algures um dos mais brilhantes meteorologistas ingleses, Brunt, que o avanço da ciência atmosférica está em mãos de três tipos de seus cultores: o matemático, o físico e o observador evidentemente, todos os três com a cultura básica imprescindível. Os problemas da circulação geral podem ser manipulados por qualquer dos três, cabendo ao mais modesto, provavelmente, a mais decisiva contribuição.
O autor chama atenção para as especificidades do hemisfério sul, com problemática bastante diferenciada da do norte e bastante menos estudada e aponta para a necessidade de pesquisas guiadas pelas melhores normas constantes nas obras de referência indicadas na bibliografia. Explica também a necessidade de compreender a circulação geral do hemisfério sul para se chegar ao entendimento da nossa realidade e conclui:
Os meteorologistas brasileiros, sob certo ponto de vista, têm vantagens sobre outros colegas do hemisfério sul, porque dispõem, já, de grande massa de observações de sua maior área continental, ainda inédita facilitando-lhes, por exemplo, a interpretação dos dados referentes a zonas contíguas, mormente as do Atlântico Sul.
Referia-se ao trabalho das cartas sinóticas que desenvolvera e, ao mesmo tempo, alertava para a necessidade de confecção de uma grande carta diária para todo o hemisfério sul, como já era elaborada no norte.
Hoje os serviços meteorológicos de todo o mundo estão integrados por meio de um programa denominado Vigilância Meteorológica Mundial, que desde 1963 coleta, processa e dissemina informações meteorológicas globais.
No capítulo da radiação solar e terrestre (capítulo III) o autor chama inicialmente a atenção para a energia transportada direta ou indiretamente do sol para o seio da atmosfera, que não só se transforma na força cinética dos ventos como persiste em muitas outras mutações:
“A radiação solar exerce considerável influência sobre a vida animal e vegetal, aumentando, pois, a obrigação de seu estudo por parte dos meteorologistas”.
Segundo ele os problemas ligados à radiação solar enquadram-se em três categorias:
1. Os ligados aos instrumentos e métodos de observação;
2. Os que afetam o estudo quantitativo e qualitativo de sua composição e de suas relações físicas com outros elementos meteorológicos,
3. Os que decorrem de seus efeitos sobre a vida animal e vegetal dentro da ecologia geral.
Após tecer considerações sobre os três itens acima, indicando sempre autores e estudos sobre os temas, conclui:
Quase tudo ainda está por realizar-se no Brasil no departamento de Radiação. Está claro que tal estudo e suas aplicações não podem surgir de um dia para outro com grande desenvolvimento... Os objetivos capitais são os de recolher em rede, cada dia maior, observações seguras obtidas, com aparelhos controlados, deduzindo-se das mesmas, mediante melhores métodos, alguns dos quais de emprego internacionalizado pelos órgãos competentes, os valores usuais de grande interesse.
No capítulo da climatologia (capítulo V) Sampaio Ferraz se estende mais, conceituando inicialmente a climatologia como meteorologia do estrato atmosférico imediatamente sobre o globo, o fundo do oceano aéreo, como a aerologia o é das camadas superiores.
O autor chama atenção para uma necessidade crescente de desbravar o primeiro lençol de ar, criando paulatinamente uma rede terrestre de observação. O problema instrumental e de métodos de observação dos postos climatológicos fora iniciado por Américo Silvado e seguido por Henrique Morize (1909); outro problema, o da expansão da manipulação fundamental das observações efetuadas, exigia a padronização dos processos de representação climatológica por meio de registros e moldes.
Ele afirma que, “para que o trabalho climatológico seja realmente útil aos meteorologistas e nas suas várias aplicações, é imprescindível acrescentar às médias, aos totais, às amplitudes e às indicações extremas, valores de frequência, de variabilidade, de continuidade etc.”.
O terceiro ponto é a acessibilidade à informação, o que ele chama de divulgação climatológica. A situação era bastante diferente da de nossos dias, com dados atualizados a cada hora, acessíveis pela internet.
A utilidade incontestável do estudo do clima fez com que a classe intelectual composta de médicos, geógrafos e sociólogos valorizasse o seu desenvolvimento, priorizando-o sobre os demais. Mas mesmo assim Sampaio Ferraz declara: “Deveria esta, pois, escapar às trevas. Se escapa, é apenas para uma meia-luz”.
Como nos demais capítulos, oferece bibliografia brasileira comentada, indicando trabalhos de A. Serra, L. Ratisbonna, Magarinos Torres e do próprio Sampaio Ferraz, entre outros.
O capítulo da meteorologia marítima (capítulo VI) mostra o enorme atraso do Brasil apesar da vastidão de sua costa atlântica. Mostra também a inexistência de um conhecimento estruturado na área da oceanografia.
Apesar da vastidão desabitada dos oceanos, com exceção de pequenas ilhas, é deles que vem a maioria dos ventos e grande parcela da umidade, assim como as correntes oceânicas que tanto influenciam o clima. Ao contrário do hemisfério norte, no hemisfério sul apenas as correntes Peru e El Niño começavam a ser objeto de estudo, assim como o estudo das oscilações do degelo antártico, cujas informações se encontram nos resultados das expedições às latitudes frígidas.
Neste sentido recomendava a colaboração e a integração com a marinha mercante e navios da esquadra que poderiam, se bem equipados, fornecer dados preciosos a serem trabalhados.
Como bem acentua Kidson, o nosso hemisfério é o Water hemisphere do globo, daí a importância da meteorologia marítima.
Quanto à aerologia (capítulo VII), começa a desenvolver-se com a navegação aérea, uma vez que até então o estudo da atmosfera estava restrito ao estudo da camada ao alcance direto do homem. Os seus limites no espaço não eram facilmente precisados, sobretudo o limite superior. Na ocasião, a altitude da estratosfera, baseada no alcance do balão-sonda, era de cerca de 30 quilômetros. Que imensa diferença para os dias atuais!
A aerologia contribuía com os estudos da circulação e da termodinâmica da atmosfera, cabendo-lhe investigar a estrutura e o comportamento dessa enorme massa de ar.
É evidente que, enquanto nos esforçamos por desvendar os movimentos gerais do vasto organismo aéreo sobre o país, podemos, ao mesmo tempo, analisar-lhe mais de perto os tecidos, e os processos físicos a que os mesmos estão submetidos. Mas, deverá haver equilibrada repartição nos esforços entre os dois objetivos. O primeiro, para nos limitarmos aos problemas da circulação nos dará o como, e o segundo, o porquê dos movimentos principais da atmosfera.
O conhecimento das turbulências e das nuvens estava diretamente ligado ao campo da aerologia e já vinha sendo objeto de sérios estudos internacionais, do mesmo modo que a análise física das nuvens, das brumas, dos nevoeiros e das névoas secas. A escola francesa muito havia contribuído para o progresso nesse campo.
A aerologia, segundo o autor, deveria desenvolver uma rede de postos aerológicos – uma rede de largas malhas capazes de informar sobre o oceano atmosférico que nos envolve. Estes postos estariam equipados com balões pilotos, incumbidos de revelar a direção e a velocidade dos ventos superiores. Para o estudo dos outros elementos com os quais deduzimos as relações termodinâmicas, é necessário o uso de equipamento mais complexo, como papagaios celulares, balões sondas, balões livres e cativos e aviões capazes de transportar, no seu bojo, os meteorógrafos apropriados.
Criada e equipada a rede, caberá à meteorologia pura analisar os dados e difundi-los:
“É ao aerologista que compete o encargo preliminar de desvendar os traços gerais da circulação. Esse trabalho é depois alargado, e analisado mais de perto, pelo meteorologista sinótico, tendo em vista a previsão do tempo. Em rigor não há barreiras entre uma especialidade e outra”.
O estudo das massas de ar brasileiras, as trovoadas locais bastante generalizadas em todo território, assim como as secas nordestinas, a friagem em plena zona equatorial, o estranho regime de chuvas de inverno da saliência oriental extrema do país as estiagens de São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Espírito Santo, sul de Goiás e Mato-Grosso deveriam ser, segundo Sampaio Ferraz, objeto de atenção no futuro.
O estudo da ultrasfera (capítulo VIII) ou seja, das últimas camadas indemarcadas em torno do globo terrestre, assim como sua ionização e as auroras, são apenas mencionadas sem que haja um aprofundamento maior do tema.
A ultrasfera é o enigma remoto para o meteorologista. Entretanto esse enigma, como ainda o mais remoto do nosso Sol (se não existem ainda outros que o condicionem), será talvez, quando revelados, a chave para a compreensão das oscilações e outros caprichos, em grande escala, da circulação da atmosfera.
Do mesmo modo, o campo de estudo da meteorologia cósmica (capítulo IX) não foi aprofundado e, comparado aos conhecimentos atuais, mostrou ser totalmente insipiente.
O capítulo XIV trata da meteorologia sinótica e é dos mais desenvolvidos do trabalho, provavelmente pela importância que tem e que lhe reconhece o autor, que fez as primeiras cartas sinóticas brasileiras (1915).
A experiência profissional desenvolvida no campo teórico e no campo prático dá muita qualidade ao capítulo e revela o conhecimento do autor. Os processos sinóticos de curto prazo foram regulamentados por ele e trouxeram muitos benefícios na sua aplicação.
A meteorologia sinótica é um ramo da meteorologia pura que se dedica ao estudo do oceano aéreo como um todo e não deve ser confundido com a previsão do tempo, ramo da meteorologia aplicada.
O meteorologista sinótico é forçosamente um previsor, embora vá trabalhar com o resultado das cartas sinóticas para a obtenção de respostas e diagnósticos.
Segundo Sampaio Ferraz, “a meteorologia sinótica é um estudo da atmosfera em conjunto, para prever no sentido clássico da prova máxima da perfeição – prever é saber. Mas ela não trabalhará somente para os departamentos encarregados da previsão do tempo. Ela auxiliará todos os outros, orientando-os, graças ao recurso de que dispõe o sinótico... É a clearing house da Meteorologia, a atividade coordenadora por excelência”.
Após a Primeira Guerra Mundial, houve estagnação e poucos resultados novos. Mesmo assim, a escola norueguesa se dedicou a analisar as massas de ar e suas descontinuidades; a escola francesa trabalhou com variações isobáricas; a escola alemã aprofundou o estudo da troposfera e da estratosfera e das radiações; mas não se produziu uma meteorologia sinótica sistematizada.
A previsão do tempo é a mais importante aplicação da ciência da atmosfera e decorre diretamente da meteorologia sinótica, podendo ser de curto ou longo prazo. A de curto prazo compreende duas categorias distintas: a racional, calcada em cartas sinóticas e dados locais, e a local, baseadas exclusivamente em indicações, instrumentais ou não, do sítio e imediações, donde e para os quais se formulam os prognósticos.
Chama atenção para o fato de que cada região tem sua especificidade; embora o oceano aéreo seja o mesmo: “Os trabalhos nos centros previsores, de preparação de cartas sinóticas, mapas auxiliares e outros documentos subsidiários são de suma importância e obedecem, na maior parte, aos métodos empregados, mas também dependem do engenho prático dos operadores”.
Após se estender sobre previsão de tempo de curto e longo prazo, chama a atenção para o relativo atraso dos serviços e suas consequências danosas ao desenvolvimento de novas áreas, como a aviação.
Nos capítulos seguintes introduz os temas de bioclimatologia, climatologia médica, meteorologia agrícola e hidrometeorologia, sem, contudo, se aprofundar.
O capítulo XXI, meteorologia aeronáutica, é bastante interessante, pelo desenvolvimento que ganhou a aviação civil e militar no período estudado.
O desenvolvimento da aviação na Primeira Grande Guerra, seguido da criação de linhas aéreas comerciais, exigia maior conhecimento e especialização dos serviços meteorológicos.
Sampaio Ferraz previra esse desenvolvimento e vinha fazendo apelos, desde 1919, pela ampliação da capacidade dos serviços, dado o aumento do tráfego aéreo que se avolumava com rapidez inimaginável. O governo, contudo, foi pouco sensível aos apelos feitos, julgou que o resultado obtido quando dos raids internacionais fora satisfatório, sem entender que as informações contemplavam apenas a rota ao longo de nossa costa.
Esta estrada real possui muitas estações climatológicas, aerológicas, e as cooperativas radiotelegráficas que emitem boletins de quatro em quatro horas. Na vigência dos grandes raids, não só o Serviço Meteorológico como os Telégrafos mobilizavam pessoal, energias, boa vontade, entusiasmo e patriotismo, a fim de proteger os intrépidos navegantes. Os cabos submarinos francês, italiano e inglês, as companhias radiotelegráficas, as organizações radiotelegráficas de outros departamentos, tudo que pudesse ser útil, era aproveitado, num esforço anormal, extraordinário, excepcional.
O atraso da meteorologia aeronáutica foi causado pela falta de percepção do governo para a magnitude do problema: “O que temos atualmente em matéria de meteorologia aeronáutica é um triste arremedo, e que nos deve envergonhar, porque em nossa própria casa, são as Companhias de Navegação Aérea que se protegem a si próprias e ainda prestam auxílio aos deslocamentos das aeronaves militares”.
E conclui sua palestra sobre o tema, no Clube de Engenharia, no Rio, em 21 de dezembro de 1927: “O homem quis voar, voou. Quis singrar os ares com a aisance e a despreocupação dos pássaros. Logrou-o. Agora, na luta pela velocidade, a aspiração suprema da existência fugaz, quer ele industrializar o transporte aéreo, fundir trilhos e apagar fornalhas, para modelar o último veículo da história. Não o contrariemos”.
Assim, a sua preocupação com as demandas da navegação aérea mostra sua visão de mundo, seu compromisso com a modernidade, seu senso de oportunidade para com as necessidades de seu tempo. Sua indignação é imensa, ficando clara no seguinte texto:
O tráfego aéreo aumentará sempre. Empresas nacionais explorarão a indústria. A aviação de guerra se movimentará cada vez mais. Linhas de veículos mais leves que o ar se multiplicarão. E continuaremos, nós, nesta fase positivamente embrionária da meteorologia aeronáutica? Não é um vexame o Brasil estar oferecendo à navegação aérea moderna, condicionada no estrangeiro a práticas padronizadas, uma espécie de simulação de ajuda meteorológica? Quase tudo que fornecemos atualmente é um arremedo, tendo em vista as necessidades da aeronáutica moderna.
A meteorologia militar fala sobre a utilidade dessa ciência em tempos de guerra, de sua importância para o planejamento dos combates, para a instalação de serviços de qualquer natureza – vestuário, alimentação, abrigo contra as intempéries – a partir de dados climatológicos fornecidos. As condições meteorológicas reinantes são, necessariamente, de grande valor para todas as armas, como é o caso da meteorologia acústica, que fornece dados preciosos sobre o som emitido pelos canhões e pelas aeronaves do inimigo (experiência com localização com focos sonoros).
Do mesmo modo que a meteorologia atua decisivamente para a agricultura, a navegação e a aeronáutica, atua positivamente em numerosas indústrias manufatureiras e atividades comerciais. São, contudo as previsões do tempo as que mais interessam ao comércio e indústria, sendo indispensável o acesso à informação, assim como a conquista de credibilidade das informações dadas. Os avisos sobre fenômenos mais intensos e de caráter geral – como ondas de frio e de calor e chuvas demoradas – são da maior importância e podem limitar ou minimizar os danos e desperdícios.
No capítulo da meteorologia legal, faz considerações curiosas sobre o uso das informações meteorológicas para Justiça: revela que nos Estados Unidos os meteorologistas são chamados a informar sobre o tempo, esclarecendo situações em processos criminais. Exemplifica com o testemunho de Scarr, chefe do posto meteorológico da cidade de New York, que comparecera em juízo, ao longo de seus 25 anos de serviço, para esclarecer e ajudar o julgamento de dez mil casos. Os americanos acreditavam que as previsões, as cartas sinóticas, podiam ser o ponto principal para a obtenção de um veredicto justo.
No Brasil, ele não encontra nenhum exemplo, o que reflete a maior ignorância dos préstimos da organização meteorológica do país; há apenas alguns casos ligados a pagamento de seguros por acidentes causados pelo clima, em cujas perícias o meteorologista tem um papel relevante.
O capítulo XXV encerra o trabalho tecendo considerações sobre a importância das pesquisas científicas para o desenvolvimento. Suas colocações são de crítica ácida à realidade brasileira, embora tenha vivido toda sua longa vida pensando e contribuindo para o desenvolvimento do Brasil. Cita Gilberto Amado em Boletim de Ariel (fevereiro de 1933):
A falta de altos estudos, de institutos de ciência pura, de faculdades de ciência e de letras, bem como a inexistência da profissão intelectual propriamente dita – não reclamada pelo meio – que se contenta e que só exige técnicos (advogados, médicos, engenheiros, funcionários) explicam naturalmente nosso atraso particular.
E Sampaio Ferraz conclui: “Se o literato já passa frugalmente num país cuja elite pelo menos fala muito de letras, o cientista jejuaria à morte se, nesse mesmo país, condicionasse a sua subsistência, aos proventos da profissão intelectual propriamente dita”.
Na verdade, era um desabafo sobre a sua vida profissional, a luta pela sobrevivência sua e de sua família, a falta de recursos, a instabilidade permanente. Quando se refere à necessidade de as áreas privadas investirem nos profissionais para melhor obtenção de resultados, está também se referindo ao trabalho que desenvolverá para a Light, companhia de energia elétrica, por muitos anos, após sua aposentadoria.
Bibliografia
Acreditamos que a maior contribuição que se pode recolher hoje da Meteorologia Brasileira seja a riqueza da bibliografia, quer na quantidade, quer na qualidade.
O autor apresenta 579 títulos nacionais e estrangeiros, sendo a maioria dos textos em inglês, francês, alemão, espanhol e algo em italiano. Trata-se de textos produzidos todos entre 1891 (Esboço de uma climatologia do Brasil, de H. Morize) e 1942, vésperas da segunda edição. São apresentados e comentados livros, artigos de revistas especializadas, boletins, anais de congressos internacionais, notas em jornais e textos de conferências.
A atualidade das referências demonstra a qualidade do pesquisador, a sede permanente por informações novas e confiáveis. Há um intercambio contínuo de conhecimentos, pois como ele mesmo comenta, a atmosfera não tem fronteiras como no caso do território de uma nação.
Ao apresentar cada capítulo, Sampaio Ferraz dá as referências bibliográficas, comenta sobre os autores e o valor de suas contribuições, indicando os institutos que representam a França, Inglaterra, Alemanha, Noruega, Suécia, Áustria, Dinamarca, União Soviética, além dos Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia.
A abrangência das fontes inclui assuntos de todos os continentes, como é o caso do trabalho de G. Taylor Climatic Relations between Antarctica and Australia – Problems of polar research (Nova York, 1928); de C.E.P.Brooks, A Study of atmospheric circulation over Tropical Africa – Geophysical Memoir n.º55 (Londres, 1932); ou, de Gordon Hayes, The conquest of the South Pole: 1906-1931 (Londres, 1932).
No caso da América Latina, faz referência a autores argentinos, como é o caso do trabalho apresentado por R. Mossman: Las condiciones físicas Del Atlantico Sur entre El Rio de La Plata y las islas Orcadas del Sur durante el verano (Oficina Met. Nacional, Buenos Ayres, 1922). Sobre o continente africano, até então pouco conhecido, cita: Some upper air observations over lower Egypt, de A.S.P. Peters (Geophysical Memoir n.º 56, Met. Office, Londres, 1932).
Os trabalhos mais recentes apresentados na bibliografia datam da década de 1940 do século passado, como, de S. Petersen, Weather Analysis and Forecasting (Nova York: Mc-Graw-Hill Book Company Inc.,1940); de Adalberto Serra, As massas de Ar da América do Sul (Rio de Janeiro: Serviço de Meteorologia, 1942) e Meteorologia Equatorial – Serviço de Meteorologia (Rio de Janeiro, 1943) – este último trabalho, que lhe chegou às mãos em vésperas da segunda edição do seu livro, recebeu críticas bastante ácidas e contundentes, bem ao seu estilo.
Toda a bibliografia apresentada fazia parte de biblioteca pessoal de Sampaio Ferraz, cuja formação foi fruto de um esforço imenso ao longo de uma vida profissional produtiva, mas de rendimentos reduzidos. Foi doada por sua vontade, após a sua morte, à Academia Brasileira de Ciências do Ministério de Agricultura.