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Coleção Brasiliana

Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil

Resenha

Resenha


Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Introdução

A obra, que reproduz o relatório da Primeira Missão Cruls (1892-1893) e foi editada na Coleção Brasiliana com organização de Gastão Cruls, apresenta uma introdução “Duas palavras” e uma carta de Hastímphilo de Moura de outubro de 1946, assim como um mapa do Brasil elaborado pela Comissão Exploradora indicando a posição do quadrilátero demarcada para o futuro do Distrito Federal (escala 1:10.000.000). Tal edição contém uma única foto de todos os membros da Comissão. No fim do volume da Coleção Brasiliana foi incluído um sumário da Comissão de Estudos da Nova Capital da União: relatório parcial apresentado ao Exmo. Sr. Antônio Olyntho dos Santos Pires, digníssimo Ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas por Luis Cruls, Rio de Janeiro, 1896. Em anexo, encontra-se uma planta do Distrito Federal mostrando o adiantamento dos trabalhos topográficos realizados até o fim do ano 1895.

Em 19 de fevereiro de 1892, as fortalezas de Santa Cruz e Laje no Rio de Janeiro, se rebelaram contra o Presidente da República Floriano Peixoto. Em 6 de abril, 13 generais, após exigirem novas eleições, foram demitidos, e Floriano decretou estado de sítio no Rio de Janeiro, na época, capital do Brasil.

Apesar dessa situação político-militar complexa, em 12 de maio de 1892, por ocasião da abertura da 2ª. Sessão Ordinária da 1ª. Legislatura, o Marechal Floriano Peixoto (1839-1895), presidente da República de 23 de novembro de 1891 a 15 de novembro de 1894), em mensagem ao Congresso Nacional, afirmou:

"Reputando de necessidade inadiável a mudança da capital da União, o governo trata de fazer seguir para o planalto central a comissão que deverá proceder à demarcação da área e fazer sobre a zona os indispensáveis estudos".
Assim procedendo, Floriano Peixoto queria dar cumprimento às disposições do artigo 3º. da Constituição Federal, que os constituintes de 1891 haviam incluído na primeira Carta Magna republicana brasileira, promulgada em 24 de fevereiro de 1891 e a segunda do país (a anterior, de 1824, havia vigorado durante 76 anos). De fato, o artigo 3º da Constituição de 1891:

"Fica pertencente à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal". (CRULS, 1947, p. 36).

A decisão de Floriano Peixoto, sem dúvida, devia estar relacionada também às ameaças que o próprio regime vivia em consequência da revolta da Marinha, em 23 de novembro de 1891, que derrubou Deodoro da Fonseca, quando o contra-almirante Custódio de Melo (1840-1902), ministro da Marinha de 23 de novembro de 1891 a 30 de abril de 1893, comandou uma rebelião de três navios no Rio de Janeiro. Se a própria Marinha Brasileira ameaçava o governo brasileiro instalado na capital carioca, poder-se-ia imaginar o perigo de uma armada inimiga na baía da Guanabara.

A Comissão Exploradora do Planalto Central – chefiada pelo astrônomo de origem belga naturalizado brasileiro, Louis Ferdinand Cruls, na época, também professor da Escola Superior de Guerra e diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, atual Observatório Nacional – era composta por 22 homens, escolhidos entre engenheiros e professores da Escola Superior de Guerra, e astrônomos e servidores do Observatório Astronômico. Levou 206 caixotes e fardos, num total de dez toneladas, utilizando a estrada de ferro do Rio de Janeiro até Uberaba. Dali em diante, os componentes da expedição seguiram em lombo de burro até o planalto central.

Esses caixotes e fardos eram compostos, além das barracas, das armas, dos mantimentos, dos instrumentos científicos – tais como dois círculos meridianos, teodolitos, sextantes, micrômetro de Lugeol, luneta astronômica, heliotrópios, cronômetros e relógios, seis barômetros de mercúrio sistema Fortin e 11 aneroides, bússolas, podômetros –, também de diversos instrumentos meteorológicos, câmaras fotográficas com seu respectivo material de revelação e de uma pequena oficina de aparelhos mecânicos destinados ao conserto dos instrumentos que viessem a sofrer algum acidente.
A utilização de teodolitos, de cronômetros e dos chamados círculos meridianos portáteis (que, por pesarem de 30 a 50 quilos, nada tinham de portáteis) era necessária, na época, para a determinação, com grande precisão, das posições geográficas dos vértices do quadrilátero por meio de observações meridianas de estrelas. As alturas dos sítios visitados eram estimadas por intermédio da pressão atmosférica determinada por barômetros.

Hoje, todo esse equipamento poderia ser reduzido a uma pequena estação meteorológica digital, que determina as condições das regiões visitadas e pode ser transportada em um único veículo. Também seria possível deixar, hoje, em cada ponto do vértice do quadrilátero determinado por Cruls, uma pequena estação meteorológica que registra e transmite dados digitalizados para uma central, que os reduz e elabora seus resumos e gráficos. Atualmente, os dados de latitude, longitude e altura, por sua vez, podem ser determinados por meio do GPS – Global Positioning System (Sistema Global de Posicionamento) –, que utiliza uma rede de satélites artificiais.

Assim, pode se compreender o grande mérito da Missão Cruls e do relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central – redigido por Cruls e publicado pelo Ministério da Agricultura em 1894 e ao relatório da Comissão de Estudos da Nova Capital da União (1896). Com efeito, até então, quando se referia a esses relatórios, o interesse central eram as determinações astronômicas das posições do quadrilátero. Geralmente, esses documentos eram vistos como um trabalho essencialmente de natureza astronômica, cuja finalidade maior teria sido a de determinar a localização e as posições geográficas do quadrilátero de Cruls onde, mais tarde, foi construída a cidade de Brasília. Na verdade, cumpre destacar que foi durante essas missões que astrônomos e geógrafos descobriram acidentes geográficos da maior importância ambiental, como as águas quentes de Caldas Novas, o salto de Itiquira – uma das mais altas cachoeiras do país – e as nascentes de Águas Emendadas, berço de três das maiores bacias brasileiras: a amazônica, a platina e a do São Francisco.
Os estudos das pesquisas sobre fauna, flora, solo e recursos hídricos da região não se limitaram aos do primeiro relatório, intitulado Comissão Exploradora do Planalto Central (1894) e mais conhecido do que o segundo, Comissão de Estudos da Nova Capital da União (1896). Essas duas obras, entretanto, redigidas pelos especialistas e principais chefes dos grupos das duas comissões enviadas às regiões do planalto central brasileiro, sob a coordenação de Cruls, constituem os dois mais importantes registros de estudos ecológicos da nossa história no início da República.

Ao medirem a altitude da região, o fluxo dos rios, a umidade do ar e a intensidade das chuvas durante quase quatro anos, esses cientistas elaboram, um século antes, o procedimento que a Constituição de 1988 tornaria obrigatório: a realização de estudos de impacto ambiental antes de qualquer construção importante. Com efeito, os relatórios das duas expedições ao planalto central, em 1893 e 1896, constituem os dois primeiros Relatórios de Impacto de Meio Ambiente (Rima) realizados no Brasil.

2 A Comissão Exploradora do Planalto Central (1892-1893)

Com o objetivo de tornar realidade a determinação constitucional, uma resolução do Congresso Nacional consignou, na lei de orçamento em vigor, os recursos necessários à exploração da região da futura capital. Como consequência, o ministro dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas Antão Gonçalves de Faria (1854-1936), titular da pasta de 23 de novembro de 1891 a 23 de junho de 1892, pela Portaria 119-A, de 17 de maio de 1892, organizou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, escolhendo, para chefiá-la, Luiz Cruls. Ao comunicar essa designação, o ministro deu as seguintes instruções, que deveriam nortear a demarcação da área onde, mais tarde, durante o governo do Presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976), seria construída Brasília, sem dúvida, uma das mais belas capitais do mundo moderno:
No desempenho de tão importante missão deveis proceder aos estudos indispensáveis ao conhecimento exato da posição astronômica da área a demarcar, da orografia, hidrografia, condições climatológicas e higiênicas, natureza do terreno, quantidade e qualidade das águas, que devem ser utilizadas para o abastecimento, materiais de construção, riqueza florestal, etc da região explorada e tudo mais que diretamente se ligue ao assunto que constitui o objeto da vossa missão.
No decurso de tais trabalhos e tanto quanto possível, podereis realizar não só os estudos que julgardes de vantagem e utilidade para mais completo desempenho do vosso encargo, mas ainda os que possam concorrer para a determinação de dados de valor científico com relação a essa parte ainda pouco explorada do Brasil. (CRULS, 1947, p. 17-18)

3 Membros da comissão exploradora

Para constituir a Comissão Exploradora do Planalto Central, Cruls escolheu, entre servidores do Observatório Astronômico e engenheiros-militares, em geral, seus ex-alunos na Escola Superior de Guerra.

Além de dois astrônomos do observatório – Henrique Carlos Morize (1860-1930) e Julião de Oliveira Lacaille (1851-1926) –, Cruls incluiu também os especialistas: o médico-higienista Antônio Martins de Azevedo Pimentel (? -1928), o geólogo Eugênio Hussak (1808???-1911) e o botânico Ernesto Ule (1854-1915). Para a manutenção dos equipamentos científicos, escolheu dois mecânicos também do observatório: Eduardo Chartier e Francisco Souto. Entre seus ex-alunos da Escola Superior de Guerra, Cruls destacou os engenheiros Augusto Tasso Fragoso (1869-1945), Celestino Alves Bastos, Hastímphilo de Moura (1865-1956), Alípio Gama (1863-1935) e Antônio Cavalcanti de Albuquerque. A comissão incluía também o médico Pedro Gouveia e o farmacêutico Alfredo José Abrantes. Para cobertura e proteção dos membros da comissão, um contingente de militares foi destacado. Além da tropa, o comandante Pedro Carolino Pinto de Almeida tinha, à sua disposição, dois alferes: Joaquim Rodrigues de Siqueira Jardim e Henrique Silva. Para os serviços gerais, foram recrutados os servidores da região: Felicíssimo do Espírito Santo, Antônio Jacinto de Araújo Costa, João de Azevedo Peres Cuiabá e José Paulo de Melo.

4 Henrique Carlos Morize, o fotógrafo da comissão

Henrique Carlos Morize foi um dos expoentes da ciência no Brasil. Pesquisador de rara sensibilidade, além de organizar a primeira rede meteorológica brasileira, realizou várias pesquisas pioneiras sobre eclipses – em especial, sobre o eclipse total do Sol, em 1919, quando foi comprovada, por uma missão inglesa, a teoria da relatividade de Einstein, em Sobral (CE). Também pesquisou sobre magnetismo terrestre, aplicação dos raios X e introdução da radiodifusão no Brasil ao lado de Roquete Pinto.

Como fotógrafo, produziu um importante acervo iconográfico durante todas as expedições das quais fez parte, entre elas, a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, em 1892. As diversas fotografias que deixou, além de registrarem sua capacidade invulgar nos enquadramentos e nas composições, que apresentam uma notável nitidez para a época e para as condições em que foram realizadas, revelam um dos lados poucos conhecidos dos seus dotes artísticos como desenhista e pintor.

Morize nasceu Henry Charles Morize, em Beaume, Côte d'Or, França, a 31 de dezembro de 1860. Veio para o Brasil com 14 anos, indo residir em São Paulo, onde se empregou como caixeiro na Livraria Garraux.

Mais tarde, foi para o Rio de Janeiro, quando entrou para a Escola Politécnica. Em 1884, naturalizou-se brasileiro, passando a assinar Henrique Carlos Morize. Nesse mesmo ano, ingressou como astrônomo no Observatório Imperial. Foi nomeado professor catedrático de Física Experimental em 1898. As suas aulas eram concorridíssimas. Alunos de outras disciplinas, que não aquelas do curso de Engenharia, disputavam um lugar de onde pudessem ouvi-lo.

Com o falecimento de Luiz Cruls, em 1908, Morize assumiu a direção do observatório. Em 1916, com alguns colegas da Escola Politécnica, fundou a Sociedade Brasileira de Ciências (hoje, Academia Brasileira de Ciências), da qual foi o primeiro presidente.

Além de diversos artigos científicos, escreveu as seguintes monografias: Esboço de uma Climatologia do Brasil (1889); Influência da Lua sobre a Chuva no Rio de Janeiro (1900); État Actuel de la Météorologie Agricole au Brésil (1913); Sur le Champ Électrique de L'atmosphère au Rio de Janeiro (1915); Observatório Nacional: um século de história (1927; publicação póstuma, 1987). Morize faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 19 de março de 1930.
Procedimentos da comissão.

No dia 9 de junho, a comissão partiu do Rio de Janeiro rumo a Uberaba, ponto final da linha férrea da Companhia Mogiana. Deste ponto em diante, todo o percurso da missão foi realizado com o auxílio de animais cargueiros.
Todos os itinerários percorridos foram previamente levantados pelo processo americano de caminhamento, realizado com o auxílio do podômetro, da bússola e do aneroide. O podômetro – aparelho que mede o número de passos dados durante uma marcha –, adaptado aos animais, calculava a distância percorrida com base na extensão dos passos dos diferentes animais, que variavam entre 0,66 e 0,72m. Com a bússola, determinava-se a direção a ser seguida e, com os barômetros e/ou aneroides, a altura das regiões exploradas.

Ao longo de todo o trajeto, além do itinerário determinado pelo processo de caminhamento, astrônomos e auxiliares fizeram numerosas observações astronômicas para determinar as coordenadas geográficas com o auxílio dos sextantes e considerando as alturas meridianas do Sol e das estrelas.

Assim, a comissão chegou em Uberaba no dia 10 de junho, de onde partiu apenas em 29 de junho. Foram necessários 19 dias para reunir os animais e os acompanhantes que deveriam auxiliar os membros da comitiva, não só no transporte da enorme carga, mas também na orientação das trilhas a serem percorridas. Além do tempo necessário para esses procedimentos, uma greve de ferroviários da Central do Brasil, em 22 de junho, paralisou os transportes, o que, indiretamente, causou este pequeno atraso.

Depois que deixou Uberaba, a comissão passou pelas cidades goianas de Catalão, Entre Rios e Bonfim. Em 1º. de agosto, chegou ao seu destino, Pirenópolis onde, em 12 de agosto, Cruls decidiu dividir o pessoal em duas turmas com o objetivo de percorrer o planalto a ser explorado por dois caminhos diferentes.

A primeira turma, chefiada por Cruls, seguiu diretamente para Formosa, onde chegou a 23 de agosto. A segunda, que passou por Corumbá, Santa Luzia (hoje Luziânia) e Mestre D’Armas (hoje Planaltina), chegou em Formosa a 14 de setembro.

Ambas as turmas deviam determinar, diariamente, a hora, a longitude e a latitude dos pontos percorridos durante a exploração. Para tanto, teriam de observar quaisquer fenômenos que pudessem servir de marcadores, como os eclipses do primeiro satélite de Júpiter e as ocultações, que tinham de ser observadas pelo menos em alguns pontos do caminho percorrido. Outro processo utilizado foi a determinação da longitude por distâncias lunares, quer pela passagem da lua e/ou de uma estrela pelo mesmo vertical ou pela mesma altura, quer por diferenças de altura entre os dois astros. Em cada acampamento, faziam-se visadas com o trânsito de Gurley em direção aos acidentes geográficos mais notórios e, sempre que possível, determinava-se a declinação magnética das cidades visitadas, em especial Santa Luzia e Formosa. Ambas as turmas, sobretudo a segunda, também determinaram, desde a partida de Pirenopólis, o volume das águas dos diversos rios que encontraram em seu trajeto.

Depois dessa exploração preliminar da região, o principal problema da comissão foi a demarcação da zona destinada à futura capital federal. Havia diversas soluções possíveis, no entanto, convinha procurar a que melhor satisfizesse
6 Os limites geográficos

Uma das possíveis soluções para o problema da demarcação da zona do que viria a ser o Distrito Federal seria a de se adotar uma forma irregular para limites, aproveitando os sistemas orográficos e hidrográficos naturais. A outra, a exemplo dos EUA, cujos limites dos estados da Federação são arcos de meridiano e arcos de paralelo, seria demarcar a área sob a forma de um quadrilátero que tivesse, por lados, também arcos de meridianos e paralelos.

A primeira solução – a forma irregular –, além de exigir um longo tempo para a sua demarcação em virtude da necessidade de um indispensável levantamento do perímetro da zona delimitada, com medições de base fundamental numa primeira demarcação, exigiria, mais tarde, uma segunda demarcação, definitiva e absoluta, por meio de um levantamento geodésico.

A segunda – a solução do quadrilátero esferoidal –, além de atender melhor à proposta, tinha a vantagem, pelo seu perímetro em forma de uma figura geométrica regular, de evitar futuras questões litigiosas que poderiam surgir entre os estados limítrofes, pois as latitudes de dois arcos de paralelo, bem como as longitudes de dois arcos de meridianos delimitam a área demarcada e tornam possível verificar, a qualquer momento, a posição exata dos limites da zona no terreno. Por outro lado, a forma e as dimensões do esferoide terrestre permitiriam determinar, com suficiente rigor, a área de um quadrilátero limitado por arcos de meridiano e de paralelo, uma vez que suas respectivas longitudes e latitudes fossem bem conhecidas.

Uma vez decidida que a segunda solução era a melhor, Cruls devia escolher a forma do quadrilátero. Para isso, inspirou-se em considerações relativas à própria região, tais como sistema hidrográfico, orográfico e as riquezas naturais.

7 Normas sobre os métodos astronômicos escolhidos por Luiz Cruls para determinar as coordenadas geográficas da futura Capital Federal.

Para latitude: alturas meridianas e circumeridianas do Sol e de estrelas.

2. Para longitude:

Diferenças de alturas entre a Lua e uma estrela, observadas o quanto possível próximas do primeiro vertical.

Passagens da Lua e de uma estrela, vizinhas o quanto possível do mesmo paralelo, por uma mesma altura.

Passagem da Lua e de uma estrela, vizinhas o quanto possível do mesmo paralelo, por um mesmo vertical.

Ocultações de estrelas pela Lua.

Distâncias lunares.

Culminações lunares (somente com o círculo meridiano portátil).

3. Para a hora (longitude): alturas extrameridianas e alturas correspondentes, observadas somente com o teodolito ou com o sextante.

8 Composição dos grupos

Com base nas normas sobre os métodos astronômicos para determinação das coordenadas geográficas da futura Capital Federal, Cruls concluiu que o método mais conveniente seria o de se adotar a forma de um quadrilátero que tivesse cerca de 160 e 90 km como arcos de paralelo e meridiano, respectivamente, de modo que esse polígono tivesse uma superfície de 14.400 km2, como havia sido determinado na Constituição de 1891. Em consequência dessa decisão, a comissão reunida em Formosa resolveu dividir-se em outros quatro grupos, destinados a determinar a posição geográfica de cada um dos vértices do quadrilátero. Tais grupos tiveram a seguinte composição:

Vértice Noroeste (NW) – Coordenadas: latitude: 15º20’S e longitude: 3h15m25s. W de Greenwich. Sua distância da cidade de Formosa era cerca de 22km ao norte e 160km a oeste e do vértice de Pirenópolis, 62km. Membros: Augusto Tasso Fragoso, Celestino Alves Bastos, Alfredo José Abrantes e João de Azevedo Peres Cuiabá. Chefiado por Tasso Fragoso, o grupo realizou, durante a noite, a marcação de algumas alturas meridianas de estrelas com um sextante Hurlimann, com o objetivo de determinar a latitude do vértice noroeste. Na noite do dia 20 de setembro, observando a altura meridiana de Achernar, Tasso Fragoso verificou que se encontrava muito ao norte do paralelo de 15º20’ de latitude sul. Após observar com seu sextante as estrelas Alfa do Eridano, Alfa e Beta do Grou e Alfa de Órion, durante vários dias entre 8 de outubro e 1 de novembro, Tasso Fragoso determinou a longitude e latitude do vértice NW. Em 13 de novembro, a turma voltou a Pirenópolis, onde chegou às vésperas da chegada da turma chefiada por Cruls.

Vértice Sudoeste (SW) – Coordenadas: latitude: 15º08’35”S e longitude: 3h15m25s W de Greenwich. Sua distância da cidade de Formosa era cerca de 160km a leste e 68km ao sul e do vértice de Pirenópolis, cerca de 36km. Membros: Luiz Cruls, Antônio Martins de Azevedo Pimentel, Eduardo Chartier e Felicíssimo do Espírito Santo. O grupo, chefiado por Luiz Cruls, chegou ao vértice SW em 4 de outubro. Depois de instalar o círculo meridiano portátil Brunner tipo 2 no observatório, iniciou as observações de uma série de culminações lunares, bem como de distâncias zenitais meridianas para determinar a latitude do vértice sudoeste. Como as coordenadas do observatório se encontravam longe das escolhidas para o vértice previsto teoricamente, foram feitos prolongamentos com auxílio de um teodolito e de um micrômetro de Lugeol. Uma vez fixado o vértice SW (cerca de 1534m ao sul e 5000m a leste do observatório) abriu-se, no solo, uma cavidade cúbica de 3m de lado, onde foi depositada uma caixa, hermeticamente fechada, contendo a ata de fixação desse vértice, assinada pelos membros do grupo e demais presentes .

Vértice Nordeste (NE) – Coordenadas: latitude: 15º20’S e longitude: 3h9m25s a W de Greenwich. Sua distância da cidade de Formosa era cerca de 22km ao norte e do vértice de Pirenópolis, 220km. Membros: J. de Oliveira Lacaille, Pedro Gouveia, Antônio Cavalcanti de Alburquerque, Pedro Carolino Pinto de Almeida e Henrique Silva. Em 14 de outubro, Lacaille, chefe do grupo NE, adoeceu e pediu dispensa do serviço. Foi substituído por Cavalcanti de Albuquerque. Este foi o único vértice não demarcado simultaneamente com os outros, pois os seus integrantes voltaram para Pirenópolis, onde aguardaram novas ordens. Em 18 de dezembro, o grupo retornou a Formosa a fim de proceder à demarcação desse vértice, o que se realizou em 15 de janeiro de 1893. Além da determinação geográfica, o grupo estudou o sistema hidrográfico, a possibilidade de aproveitamento das pedras para as construções das futuras edificações e das argilas para a fabricação de tijolos. Seus integrantes observaram que a região explorada não era rica em florestas, o que dificultaria a obtenção de madeira.

Vértice Sudeste (SE) – Coordenadas: latitude: 16º08’35”S e longitude: 3h9m25s a W de Greenwich. Sua distância da cidade de Formosa era cerca de 71km ao sul. Membros: Henrique Morize, Alípio Gama, José Paulo de Melo, Antônio Jacinto de Araújo Costa e Joaquim Rodrigues de Siqueira Jardim. O grupo SE, chefiado por Morize, deixou Formosa em 1º. de outubro. Na noite de 4 de outubro, Morize observou duas distâncias zenitais de Júpiter, o que lhe permitiu fornecer o estado absoluto inicial dos relógios. No dia seguinte, observou o Sol para determinar a hora e a latitude do vértice sudeste. Antes de partir, Morize havia determinado a latitude de Formosa com sextante e horizonte artificial, o que lhe fornecera um valor de 15º32’40”. Sabendo que o ponto procurado devia estar numa latitude de 16º8’35”, estimou que o seu grupo deveria caminhar pelo menos 64km em linha reta. Depois de instalar um observatório provisório, foi obrigado, em 4 de novembro, a deixá-lo sob a guarda de dois membros da turma, para a ele retornar na lunação seguinte, uma vez que as observações se mostravam insuficientes. No dia 8 de novembro, um portador enviado por Cruls recomendou mais rapidez e sugeriu que, em caso de mau tempo, o grupo poderia reduzir de 10 para 5 as determinações de longitude. Morize determinou o vértice SE e seguiu, no dia 10 de novembro, para Pirenópolis, onde chegou no dia 18 do mesmo mês.

9 Vantagens da localização de Brasília

Sobre as vantagens de se transferir a capital do país para Brasília, que só seria uma realidade em 1960 graças à visão de desenvolvimento de JK, deve-se transcrever o seguinte texto de Cruls:

É inegável que até hoje o desenvolvimento do Brasil tem-se, sobretudo, localizado na estreita zona do seu extenso litoral, salvo, porém, em alguns de seus Estados do Sul, e que uma área imensa de seu território pouco ou nada tem beneficiado deste desenvolvimento. Entretanto, como demonstra a exploração à qual procedeu esta Comissão, existe no interior do Brasil uma zona gozando de excelente clima com riquezas naturais, que só pedem braços para serem exploradas. Não conviria, pois, procurar dar aquela imensa região à vida que lhe falta?

Sem entrarmos aqui em considerações de ordem política e administrativa, que não são da nossa competência, muitas razões há que aconselham a mudança da Capital Federal para um ponto do interior do território.
Entre elas salienta-se o incontestável benefício que daí resultará para toda essa imensa região central, à qual faltou até hoje a indispensável vitalidade para que se pudesse desenvolver e progredir convenientemente.
Para ela convergiriam então as principais estradas de ferro, que seriam como que as artérias ligando-a não só aos principais portos do litoral como também às capitais dos diversos Estados.

Em suma, julgamos desnecessário insistir nas vantagens para o desenvolvimento e progresso futuro do país que hão de indubitavelmente resultar da realização desse projeto, ora submetido à deliberação definitiva dos representantes da nação.

Quanto aos inconvenientes ou desvantagens que dessa medida podem provir, acreditamos que eles só existem na imaginação de um pequeno número de pessoas pouco propensas às idéias progressistas e que considerando insuperáveis as dificuldades que lhe são inerentes, acham preferível não sair dos trilhos da velha rotina, esquecendo-se que esta é incompatível com todo e qualquer progresso. (CRULS, 1947, p. 58-59)

Em relação à distância, um dos principais argumentos de Cruls, que não presenciara ainda o advento da aviação que encurtou as distâncias, foi:

De fato, sendo a distância à vol d’oiseau entre esta capital e o centro da zona demarcada de cerca de 970 quilômetros, será sempre possível construir-se uma estrada de ferro, cujo traçado no seu desenvolvimento total não excederá essa distância de mais de 25%, isto é, terá no máximo 1.200 quilômetros.

Esta distância poderá facilmente ser vencida em 20 horas, admitindo para os trens de passageiros uma velocidade média de 60 quilômetros por hora, incluindo paradas, etc., velocidade esta inferior de 50 a 60% às velocidades máximas atingidas em diversas ferrovias norte-americanas.

Provado, pois, como está, por esses algarismos, que se poderá percorrer a distância entre a nova capital e o porto do Rio de Janeiro, em vinte horas, vê-se que a objeção da distância não é sustentável.

De semelhante estrada de ferro, com um traçado o mais direto possível, não poupando as necessárias obras de arte, dependerá o bom ou o mau êxito do importante projeto da mudança da Capital Federal, encarado pelo lado dos benefícios que sua realização pode trazer para o desenvolvimento da região central do Brasil.

É certo, pois, que assim ligada ao porto do Rio de Janeiro, a futura Capital Federal não tardará a tornar-se um centro industrial e comercial, cuja vitalidade será um fator importante e poderoso para a futura prosperidade deste rico país. (CRULS, 1947, p. 59-60)

Assim, o conjunto formado pelos quatros marcos deixados no planalto central por Luiz Cruls e sua equipe pode ser considerado um autêntico monumento à força de vontade do homem.

10 Comissão de Estudos da Nova Capital da União (1894-1895)

O sucesso da Comissão Exploradora do Planalto Central fez com que, em 1º. de junho de 1894, o general de brigada Bibiano Sérgio Macedo da Fontoura Costallat (1845-1904; Ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, em nome do vice-presidente da República, de 24 de abril de 1894 a 15 de novembro de 1894) resolvesse aprovar os trabalhos da Comissão de Estudo da Nova Capital da União para a qual também foi designado Luiz Cruls.

Com base na planta da região já delimitada pela Comissão Exploradora do Planalto Central e nos conhecimentos acumulados durante esta primeira missão, a finalidade da nova comissão foi a de empreender os estudos necessários para fixar o local destinado à nova capital. Nesta tarefa, Luiz Cruls deveria orientar-se dentre dos seguintes parâmetros: determinar a salubridade do clima; a qualidade das águas, sua abundância e a facilidade para o abastecimento da futura capital e, finalmente, estudar a topografia assim como a natureza do terreno do planalto central, considerando-se as condições existentes e tendo em vista a necessidade de edificações e comunicações urbanas que permitissem o desenvolvimento de uma grande metrópole.

Uma vez concluída a escolha definitiva do local, deveria a segunda comissão organizar uma estação destinada à observação diária, regular e ininterrupta das condições meteorológicas da região, de modo que fosse possível estabelecer um conhecimento completo dos fatores climatológicos do lugar escolhido. Para essa comissão de estudo, previa-se também rigoroso levantamento topográfico e a triangulação da área de 14.400 km2, assim como a determinação de suas coordenadas astronômicas.

Para que a nova capital estivesse ligada às demais cidades do país, deveria a comissão de estudo estabelecer o reconhecimento das possibilidades de comunicação por vias férreas e mistas (ferrofluviais), além de estudar o estabelecimento de um ramal de estrada de ferro com base em Catalão. A comissão deveria, ainda, analisar as ligações com os rios Araguaia e São Francisco e estudar o traçado de uma estrada de ferro mais direta entre a futura capital e a capital à época – o Rio de Janeiro –, se possível, aproveitando as estradas já existentes.

Outro objetivo da comissão de estudos era o de estabelecer, com a Repartição dos Telégrafos, uma linha telegráfica que ligasse a zona demarcada à estação mais próxima à rede de comunicação.

Posteriormente, Costallat aprovou duas outras resoluções, ambas sugeridas por Luiz Cruls: a primeira seria a de se delimitar uma área quadrada de 100km de lado a ser reservada à futura capital no quadrado de 14.400 km2 anteriormente determinado pela Comissão Exploradora. A segunda seria a de se adotar, para os cálculos do abastecimento d’água da futura capital, as seguintes bases: 500 litros diários por habitante para uma população de 1 milhão de habitantes.

11 As instruções

Mais tarde, com fundamento nos estudos anteriores de Cruls, que previam a continuação de uma estrada de ferro do Catalão a Cuiabá, como consta do relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central, Antônio Olyntho dos Santos Pires (1860-1925; Ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas de 15 de novembro de 1894 a 20 de novembro de 1896) resolveu, em 9 de outubro de 1895, aprovar a instrução destinada à construção dessa ligação e que fora assinada em 2 de outubro de 1895, pelo escritor Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), na época, diretor-geral da Viação do ministério:

Art. 1.º A direção das obras da estrada de ferro de Catalão a Cuiabá é confiada ao engenheiro Luiz Cruls, chefe da comissão encarregada dos estudos da nova capital da União.

Art. 2.º Ao referido chefe compete:

I. – Proceder ao reconhecimento da região compreendida entre Catalão, Goiás e Cuiabá, percorrendo-as nos dois sentidos – ida e volta – a fim de estudar as suas condições topográficas e reunir dados que possam servir de base para os trabalhos ulteriores da exploração;

II. – Realizar os trabalhos de exploração para o estudo do traçado que compreenderá:

a) o traçado de uma linha de ensaio;
b) o nivelamento longitudinal;
c) os nivelamentos transversais;
d) a determinação da longitude e latitude dos principais pontos e declinação magnética;
e) o apanhamento de dados estatísticos;
f) todos os trabalhos de escritório que se relacionam com os executados no campo, sendo as plantas feitas na escala e de acordo com as disposições em vigor.

Art. 3.º Na escolha definitiva do traçado, terá em vista o engenheiro-chefe a maior economia, atendendo as seguintes condições técnicas:

a) a estrada será de bitola de um metro;
b) o raio mínimo das curvas será de 100 metros;
c) o declive máximo será de 2,5%, só podendo ser empregada esta taxa em curvas de raio superior a 180 metros.

Art. 4.º O engenheiro-chefe empregará nos trabalhos de que tratam estas instruções o pessoal que julgar necessário da comissão de estudos da nova capital da União.

Parágrafo único. Compete-lhe organizar as instruções necessárias à boa marcha dos referidos trabalhos, solicitando do ministério competente as providências que excedam de suas atribuições.

Art. 5.º O engenheiro-chefe remeterá, ao ministério da indústria, viação e obras públicas, de três em três meses, um relatório resumido dos trabalhos realizados, e oportunamente o relatório anual com a proposta do crédito necessário às despesas do ano seguinte, devidamente justificada.

Art. 6.º Os trabalhos terão o andamento compatível com os créditos destinados anualmente ao pagamento das respectivas despesas.

Art. 7.º O engenheiro-chefe, dentro de suas atribuições, providenciará provisoriamente nos casos omissos nestas instruções, quando a urgência do serviço o exigir, e representará imediatamente ao Ministério da Industria, Viação e Obras Públicas para que este resolva definitivamente como as circunstâncias reclamarem. (CRULS, 1896, p. 9-10)

12 Membros da Comissão de Estudos da Nova Capital da União

Com base nas instruções realizadas por Machado de Assis, Cruls decidiu, para melhor aproveitar o pessoal da comissão de estudo, dividi-la em cinco turmas destinadas a seguir cinco itinerários distintos, que convergiram todos para a zona demarcada pela Comissão Exploradora do Planalto Central.

A primeira turma, sob a chefia do Dr. Henrique Morize, tinha como membros o engenheiro-militar António Cavalcanti Albuquerque, o geólogo Eugênio Hussak e o auxiliar técnico Guilherme Meyer. Seguiu por mar do Rio de Janeiro até a Bahia e, daí, até Juazeiro, de onde subiu o Rio São Francisco até o ponto onde cessava a navegação fluvial, dirigindo-se então, por terra, até a cidade de Formosa.

A segunda, sob a chefia do Dr. Hastimphilo de Moura, tinha como membros o engenheiro-militar João José de Campos Curado e o auxiliar técnico Luiz de Sousa Barros. Partiu da última estação do prolongamento da Estrada de Ferro Central e seguiu em direção a Formosa.

A terceira, sob a chefia do Dr. Celestino Alves Bastos, tinha como membros o engenheiro-militar Antônio Mariano Alves de Moraes, o médico José de Araújo Bulcão e o auxiliar técnico Francisco Lopes de Sant’Ana Lima. Partiu da Estação de Itapecerica (Estrada de Ferro Oeste de Minas) e seguiu em direção à cidade de Santa Luzia, Goiás.

A quarta, sob a chefia do Dr. Alípio Gama, tinha como membros o engenheiro Paulo Freitas e Custódio Senna Braga e o auxiliar técnico Antônio Rocha Sant’Ana. Partiu de Paredão, margem esquerda do Rio São Francisco, e seguiu para Santa Luzia, percorrendo, porém, itinerário distinto do da terceira turma.

A quinta, sob a direção do chefe da comissão, Luiz Cruls, tinha como membros o geólogo Francisco de Paulo Oliveira, o engenheiro Joaquim José Firmino, o botânico A. Glaziou e o capitão-mecânico Eduardo Chartier. Levou consigo o resto do pessoal e todo o material científico e seguiu por Uberaba e Morrinhos até Pirenópolis.

Aos chefes de cada turma, recomendou-se que fizessem o levantamento dos itinerários percorridos e recolhessem a maior quantidade possível de informações e de dados sobre as regiões atravessadas.

13 Relatório parcial da Comissão de Estudos da Nova Capital da União (1896)

Durante 18 meses, de julho de 1894 até os fins de 1895, enquanto Luiz Cruls explorava o sítio da futura capital do país, Prudente de Moraes (1841-1902; Presidente da República de 15 de novembro de 1894 a 15 de novembro de 1898), que herdara problemas de toda a natureza, como revoltas militares mal resolvidas – a principal no Rio Grande do Sul –, o combate aos camponeses de Canudos e os efeitos do encilhamento de Rui Barbosa, era obrigado a administrar uma economia endividada e em queda, o que motivaria a suspensão dos recursos orçamentários destinados à segunda missão de estudo da nova capital. De fato, em seu relatório parcial, publicado em 1896, escreveu Cruls:

Pelos relatórios parciais apresentados pelos respectivos chefes de serviço e de turma, ver-se-á que, eficazmente auxiliado pelo pessoal desta Comissão, como temo-lo sido por ocasião da Comissão Exploradora, a soma de trabalhos executados em 18 meses, em região muitas vezes falha de recursos, encontrando dificuldades sem número, nem por isso deixou de ser considerável, sendo apenas para lastimar que não havendo verba consignada no orçamento vigente para os nossos trabalhos, fosse o governo obrigado a mandar suspendê-los.

Atendendo, porém, que se tratava de assunto previsto na Constituição, e ao qual se ligam os mais altos interesses do país, oferecemos em nome de todo o pessoal desta Comissão, prosseguir nos trabalhos, contanto que o governo solicitasse do Congresso os necessários créditos para o custeio das despesas durante o atual exercício, oferecimento que foi aceito pelo Governo. Graças a esta solução altamente patriota, continuam atualmente os trabalhos confiados a esta Comissão, tendo-se apenas, para reduzir o quanto possível as despesas, substituindo, nos Estados da Nova Capital, os trabalhos de campo pelos de escritório e prosseguindo com os trabalhos de reconhecimento da Estrada de Ferro de Catalão a Cuyabá. (CRULS, 1896, p. V)

Com referência à topografia e à triangulação da zona demarcada, Cruls lamentou que a suspensão dos trabalhos de campo impedisse a conclusão das tarefas quando grande parte dos levantamentos topográficos já havia sido executada. Desse modo, não foi possível organizar o mapa do novo distrito na escala 1/100.000.

Para comprovar o estado de avanço do levantamento topográfico e hidrográfico até 30 de dezembro de 1895, foi incluído, no relatório parcial (1896), um mapa na escala 1/250.000 do novo Distrito Federal. O principal encarregado do serviço geodésico – o astrônomo Henrique Morize – já havia procedido ao reconhecimento da região escolhida assim como dos vértices dos triângulos, onde deveriam ser colocados os respectivos sinais, um dos quais no alto do Pirineus. Ficou demonstrado que só seria possível obter alguns triângulos com dados de cerca de 50km de comprimento.

Sobre a escolha do local para a futura Capital Federal, escreveu Cruls:

A escolha definitiva do local dentro da zona demarcada, e que reunisse a maior soma de condições indispensáveis para edificação da futura capital, depende agora apenas da conclusão de alguns trabalhos, que dizem respeito ao abastecimento d’água e aos quais se estava procedendo em fins do ano próximo passado, e tendo por fim a determinação exata da altitude relativa de algumas cabeceiras, assim como a respectiva despesa d’água. Sob o ponto de vista da qualidade, abundância d’água, natureza e topografia do terreno, salubridade e condições climatológicas, é provável que esta escolha se fixe definitivamente quer na região compreendida entre os rios Gama e Torto, quer no vale do rio Descoberto. Esta escolha, porém, só se fará depois de mais apurado exame das vantagens que uma e outra região apresentam. (CRULS, 1896, p. 12)

Para melhor organização dos trabalhos, tanto do ponto de vista econômico como técnico, as diversas turmas acamparam num ponto central da região demarcada. Edificaram-se pequenos ranchos, em número suficiente para serem utilizados como moradia e guarda de material. Como o local do acampamento estava situado em terreno de propriedade particular, surgiram, em setembro de 1894, nos jornais do Rio de Janeiro, protestos, com o receio de que o Governo da União viesse a se apossar dessas áreas privadas sem nenhuma indenização aos proprietários.

Como chefe da comissão de estudos, Cruls levou os protestos ao conhecimento do governo e declarou as alegações sem fundamento com base no fato de que o governo federal só ocuparia os terrenos que fossem de sua propriedade. Os que não fossem, só depois de prévio acordo e indenização aos proprietários.

Assim, em fins de 1894, um observatório meteorológico foi instalado no acampamento a uma altitude de 1000m, realizando observações regulares à 1h, às 4h, 7h, 10h, 13h, 16 h, 19h e 22 h, sob a responsabilidade do João José de Campos Curado.

Com fins de estudar as condições de navegabilidade dos rios São Francisco e Araguaia, foram enviadas duas turmas às regiões desses rios. Uma, sob a chefia de Henrique Morize, que visava aproveitar a navegação fluvial já existente no rio São Francisco e examinar as condições topográficas da região atravessada até Formosa, com o objetivo de desenvolver uma estrada de ferro que ligasse a futura capital à Bahia. Outra, sob a chefia de Antônio Cavalcanti, levantou as condições de navegabilidade do Araguaia e a conveniência de se ligar a futura capital a este rio por intermédio de uma estrada de ferro que passasse pela capital de Goiás.

Em 30 de novembro de 1895, iniciou-se o reconhecimento da estrada de Catalão a Cuiabá, pelo engenheiro James João Mellor, que determinou a distância entre Catalão e Goiás (antiga capital do estado de Goiás até os anos 30 e 40, quando a capital foi transferida para Goiania) em 453,5km. Segundo Mellor, toda a região percorrida era fertilíssima, apresentando campos para pastagens e onde se poderia desenvolver uma indústria pastoral, ao lado de uma floresta composta de grande variedade de madeiras. Ele ainda assinalou uma notável riqueza aurífera, atestada com as enormes escavações realizadas pelos antigos bandeirantes na cidade de Bonfim, Ouro Fino e Caldas Novas.

14 Primeiro Relatório de Impacto de Meio Ambiente (Rima)

A relevância das informações, o rigor científico e o amor à natureza que orientaram Luiz Cruls e seus companheiros em suas pesquisas sobre a fauna, a flora e o solo durante as duas comissões à região do planalto central brasileiro fazem, de seus relatos, os registros ecológicos mais importantes da nossa história.

15 A grande esperança

Luiz Cruls fez o depoimento da esperança que norteava todas as suas decisões:

Tenho a mais absoluta convicção de que da mudança da capital, a par dos interesses políticos que a ela se prendem, resultará para o Brasil, sua prosperidade e desenvolvimento futuro, as mais benéficas conseqüências, que atualmente ninguém pode avaliar.

O empreendimento, conquanto de difícil realização, não deixa de ser exeqüível, e pode sê-lo em tempo relativamente curto, o que depende exclusivamente da existência de uma via férrea. Ora, duas estradas estão atualmente convergindo para a cidade de Catalão, a Mogiana e a Oeste de Minas, e aí poderão chegar os trilhos dentro de muito pouco tempo. Se, ao mesmo tempo, o governo fizer ativar o mais possível os estudos, e a construção da Estrada estratégica de Catalão-Goiás, Cuiabá, com ramal para o Planalto, o trecho desta Estrada a construir entre Catalão e a Nova Capital terá um desenvolvimento que não excederá muito de 450km. Melhores condições sob o ponto de vista do menor desenvolvimento apresentará a Estrada de Catalão a Palmas, cujo traçado atravessa a zona demarcada, encurtando ainda mais o traçado e tornando até desnecessária a construção de um ramal, destinado a ligar a futura Capital com a Estrada de Catalão a Goiás, uma vez que se realizar a construção da Estrada de Catalão a Palmas.

Por aí vedes, Sr. Ministro, que a ligação, por meio de uma via férrea, entre a atual e a futura Capital, é questão de poucos anos, embora, o aproveitamento das atuais estradas de ferro, já existentes, tem o grande inconveniente de alongar consideravelmente o desenvolvimento total do traçado; mas em todo o caso, é a única solução que, por hora, se impõe, até que, um dia, seja levado avante o projeto de uma estrada de ferro de traçado direto, idéia que já apresentei no Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central, e aliás perfeitamente realizável, ainda que de execução onerosa.
Antes de terminar estas ligeiras considerações, Sr. Ministro, não posso deixar de declarar o quanto é lastimável não ter o Congresso Nacional concedido a necessária verba para continuação dos nossos trabalhos, durante o exercício vigente.
Seria muito para desejar que o Congresso Nacional manifestasse de modo positivo e terminante, sua opinião sobre a magna questão da mudança da Capital Federal, aliás prescrita no Art. 3º da Constituição brasileira. Caso não fosse julgada digna de ser realizada, o que pessoalmente considero como altamente prejudicial para os interesses mais vitais do Brasil, melhor será abandonar de vez a idéia; caso, porém, os membros do Congresso a considerassem merecedora de realização, tornam-se indispensável conceder-se anualmente a verba necessária para o custeio dos estudos." (CRULS, 1896, p. III-IV)

Anexo I: Cronologia da Comissão de Exploração do Planalto Central do Brasil

17/5/1892 – Nomeação da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, composta por 22 membros e chefiada pelo astrônomo Luiz Cruls, encarregado de demarcar os 14.400km2 estabelecidos, pela Constituição de 1891, para a futura Capital Federal.

9/6/1892 – Partida da comissão de exploração do Rio de Janeiro com destino à cidade de Uberaba (MG).

29/6/1892 – Partida da comissão de exploração, de Uberaba, com destino a Pirenópolis (GO).

11/7/1892 – Chegada da comissão às margens do Rio Paranaíba (divisa entre os estados de Minas Gerais e Goiás).

13/7/1892 – Montagem do acampamento da comissão na fazenda de Mariano dos Casados (altitude barométrica de 490m).

14/7/1892 – Chegada da comissão a Catalão (GO).

19/7/1892 – Travessia do Rio Veríssimo, afluente do Paranaíba, através de uma ponte de 48m de comprimento.

23/7/1892 – Travessia do Rio Corumbá num lanchão.

29/7/1892 – Pernoite em Piracanjuba (GO).

30/7/1892 – Avistamento da cadeia de montanhas dos Pirineus.

1/8/1892 – Chegada a Pirenópolis. Divisão da comissão em duas turmas: uma incumbida de ir diretamente à lagoa Formosa, e a outra, de passar por Santa Luzia, atual Luziânia, antes de dirigir-se a Formosa.

7/8/1892 – Escalada para a medição da altitude do Pico dos Pirineus (1.385m).

9/8/1892 – Regresso a Pirenópolis.

13/8/1892 – Partida da turma encarregada de ir a Formosa passando por Santa Luzia.

23/8/1892 – Saída da turma cujo destino era ir diretamente a Formosa (dirigida por Luiz Cruls).

30/8/1892 – Exploração da lagoa Mestre D’Armas e chegada à Vila Mestre D’Armas, atual Planaltina, por uma das turmas.

1/9/1892 – Chegada de uma das turmas a Formosa.

2/9/1892 – Divisão da comissão em quatro turmas (NW, SW, NE e SE), cada uma incumbida de determinar o terreno e a posição de um dos vértices do quadrilátero correspondente à área da futura capital.

12/9/1892 – Saída de Formosa da turma chefiada pelo capitão Celestino Alves Bastos, encarregado de fazer uma excursão à Chapada dos Veadeiros antes de dirigir-se ao vértice NE da área a ser demarcada.

14/9/1892 – Chegada em Formosa da turma que havia passado por Santa Luzia.

15/9/1892 – Saída de Formosa das turmas NW e SW, chefiadas por Tasso Fragoso e Luiz Cruls respectivamente.

16/9/1892 – Acampamento das turmas NW e SW em Itiquira.

17/9/1892 – Exploração, por parte das turmas NW e SW, da região onde estão localizadas as cachoeiras de Itiquira e as cabeceiras Santa Rita, Bandeirinha e Vendinha, relativas aos rios São Francisco, Tocantins e Paraná respectivamente.

18/9/1892 – Chegada das turmas NW e SW à Lagoa Formosa.

20/9/1892 – Chegada das turmas NW e SW à Vila Mestre D’Armas.

21/9/1892 – Separação da turma SW da turma NW. A primeira seguiu para Santa Luzia

22/9/1892 – Chegada da turma NE a Pouso Alto.

01/10/1892 – Saída de Formosa da turma SE chefiada por Henrique Morize.

14/10/1892 – Pedido de dispensa do chefe da turma NE, Julião de Oliveira Lacaille, por motivo de saúde. Ele foi substituído por Cavalcanti Albuquerque.

14/11/1892 – Fixação do vértice NW.

15/11/1892 – Fixação do vértice SW.

16/11/1892 – Chegada a Pirenópolis da turma NW.

17/11/1892 – Chegada a Pirenópolis da turma SW.

18/11/1892 – Fixação do vértice SE.

12/12/1892 – Partida de alguns membros da comissão de Pirenópolis para a cidade de Goiás.

15/12/1892 – Chegada a Pirenópolis da turma SE.

18/12/1892 – Saída de Pirenópolis da turma NE.

18/12/1892 – Chegada a Goiás dos membros da comissão que partiu de Pirenópolis.

23/12/1892 – Saída de Pirenópolis dos outros membros da comissão (com exceção da turma NE).

30/12/1892 – Chegada da turma NE a Goiás.

15/1/1893 – Fixação do vértice NE.

20/1/1893 – Chegada a Uberlândia da turma que partiu primeiramente de Pirenópolis.

23/2/1893 – Chegada da turma NE a Uberaba.

05/3/1893 – Chegada a Uberaba da turma que partiu de Pirenópolis por último.

Anexo II: Relatórios Cruls

1ª Missão Cruls (1892-1893).

Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil – Relatório Parcial apresentado ao ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, Imprensa a vapor H., Lombaerts & Comp. Rio de Janeiro, 1893, 140 paginas, 2 fotogravuras, 1 mapas e diversas tabelas.

Relatório resumido e provisório. Nas referências bibliográficas, em geral, designa-se "relatório parcial" o da 2ª Missão Cruls (1894-1896), que nunca chegou a ter uma edição "completa" e jamais foi reeditado.

Cruls, Luis. Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brazil / Rapport de la Commission d'Exploration du Plateau Central du Brésil. H. Lombaerts & Co: Rio de Janeiro, 1894. 365 páginas, 27 fotogravuras, 2 mapas e 3 tabelas. 1ª edição. 22x32 cm

Atlas dos itinerários, perfis longitudinais e da zona demarcada. H. Lombaerts & Co: Rio de Janeiro, 1894. 30x 45 cm
Trata-se do famoso "Relatório Cruls" (1894) – o mais completo e bilíngüe (francês – português) – referente à 1ª Missão Cruls (1892-1893), durante o governo do presidente Floriano Peixoto, em 1892. Na época, foi denominado "Relatório completo", para diferenciá-lo de outro "parcial", anterior, publicado pela Imprensa a vapor H., Lombaerts & Comp. Rio de Janeiro, em 1893.

O conjunto completo inclui também o volume separado de mapas — Atlas dos itinerários, perfis longitudinais e da zona demarcada.

As referências bibliográficas ao "relatório parcial" referem-se, quase sempre, ao da 2ª Missão Cruls (1894-1896), que nunca chegou a ter uma edição "completa", e jamais foi reeditado.

Cruls, Luis. Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, Brasiliana, Biblioteca Pedagógica Brasileira, Companhia Editora Nacional, Série 5ª, Vol. 258, São Paulo, 1947, 369 páginas, 1 foto e diversas tabelas.

A edição da Brasiliana - organizada por Gastão Cruls - apresenta uma introdução “Duas palavras” e uma carta de Hastímphilo de Moura de outubro de 1946, assim como um mapa do Brasil elaborado pela Comissão Exploradora indicando a posição do quadrilátero demarcada para o futuro do Distrito Federal (escala 1:10.000.000). Tal edição contém uma única foto de todos os membros da Comissão.

No fim do volume da Coleção Brasiliana foi incluído um sumário da Comissão de Estudos da Nova Capital da União: relatório parcial apresentado ao Exmo. Sr. Antônio Olyntho dos Santos Pires, digníssimo Ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas por Luis Cruls, Rio de Janeiro, 1896. Em anexo, encontra-se uma planta do Distrito Federal mostrando o adiantamento dos trabalhos topográficos realizados até o fim do ano 1895.

Cruls, Luis. Planalto Central do Brasil, Introdução de Gastão Cruls. Coleção Documentos Brasileiros, Livraria José Olympio Editora, 3ª edição, Rio de Janeiro, 1957. 333 paginas, 26 ilustrações e 3 mapas.

A edição do editor José Olympio é uma reprodução rigorosa do texto publicado em 1947 na Coleção Brasiliana, na qual Gastão Cruls incluiu um esboço bibliográfico e uma bibliografia científica de Luís Cruls assim como um relatório dos trabalhos executado no Observatório Astronômico no período de 1881 a 1902.

Cruls, Luis. Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil – Relatório Cruls, CODEPLAN - Companhia do Desenvolvimento do Planalto Central, Distrito Federal, Brasília, 1984 (4ª edição); 1987 (5ª edição); 1992 (6ª edição), 388 paginas, 27 fotogravuras, 17 mapas retiradas do Atlas dos itinerários, perfis longitudinais e da zona demarcada (1894) e diversas tabelas.

Cruls, Luis. Relatório Cruls - Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil,. Edições do Senado Federal, 22, Distrito Federal, Brasília, 2003 (7ª edição); 380 paginas, 27 fotogravuras, 17 mapas do Atlas dos itinerários, perfis longitudinais e da zona demarcada (1894) e diversas tabelas.

2ª Missão Cruls (1894-1896).

Cruls, Luis. Comissão de Estudos da Nova Capital da União: relatório parcial apresentado ao Exmo. Sr. Antônio Olyntho dos Santos Pires, digníssimo Ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas por Luis Cruls, Rio de Janeiro, Typo lith. Carlos Schimdt – sucessor de H., Lombaerts & Comp. Rio de Janeiro, 1896, III + 163 paginas, 4 mapas e diversas tabelas.
As referências bibliográficas a um "relatório parcial" referem-se, quase sempre, ao da 2ª Missão Cruls (1894-1896), que nunca chegou a ter uma edição "completa" e jamais foi reeditado. Trata-se de um importante documento; além dos relatórios dos demais membros da missão, encontram-se o botânico A. Glaziou que não participou da primeira missão.